Contexto histórico
Os relevos combinam procissão da família imperial, cenas de sacrifício e alegorias da abundância, articulando três mensagens: legitimidade dinástica, restauração religiosa e prosperidade. O monumento integrava um conjunto urbanístico maior no Campo de Marte que incluía um relógio solar monumental e o mausoléu do próprio Augusto. É o exemplo mais claro do uso romano da arquitetura e da escultura como instrumento de comunicação política.
Como se desenrolou
O Senado decretou o altar em 4 de julho de 13 a.C., quando Augusto regressou a Roma depois de passar cerca de três anos na Hispânia e na Gália. Nas Res Gestae, o próprio príncipe diz que a assembleia ordenou erguer uma Ara Pacis Augustae no Campo de Marte, com sacrifícios anuais a cargo de magistrados e sacerdotes e das virgens vestais. A dedicação ocorreu em 30 de janeiro de 9 a.C., data que coincide com o aniversário de Lívia, segundo uma tradição calendárica. O local ficava junto à via Flamínia, por onde o príncipe entrara na cidade, e o altar era visível a quem chegava do norte.
O recinto é um muro retangular de mármore de Carrara, com cerca de dez metros de lado, aberto por duas portas e contendo o altar propriamente dito sobre uma plataforma elevada. A face externa tem duas faixas: embaixo, ramagens de acanto em volutas, com pequenos animais e aves, e em cima, relevos figurados. Nas laterais longas veem-se duas procissões, nas quais se reconhecem senadores, sacerdotes, magistrados e membros da família do príncipe, incluindo crianças. Nas extremidades, painéis mitológicos mostram Eneias oferecendo um sacrifício, a gruta do Lupercal com Rômulo e Remo e uma figura feminina cercada de frutos, geralmente chamada Terra Mater, ainda que a identificação seja discutida.
O altar não permaneceu intacto. Enchentes do Tibre cobriram o monumento de sedimentos, e partes dele foram descobertas e dispersas a partir do século XVI, hoje em museus como o Louvre e o Vaticano. Nos anos 1930, escavações com técnicas de congelamento do subsolo permitiram retirar os blocos restantes, e o conjunto foi remontado em 1938, sob o regime de Mussolini, que o associou ao bimilenário de Augusto. Em 2006 foi inaugurado o atual edifício que o abriga, projetado por Richard Meier, às margens do Tibre, a pequena distância do local original, em área hoje separada do mausoléu augustano.
O que levou a isso
- Necessidade de consolidar simbolicamente o novo regime
- Retorno de Augusto após campanhas na Gália e na Hispânia
- Programa de restauração religiosa e moral promovido pelo governo
O que veio depois
- Consolidação de um repertório visual associado à paz e à abundância
- Reforço da imagem dinástica da família governante
- Modelo de propaganda monumental replicado por imperadores posteriores
Importância histórica
Documento visual de primeira ordem sobre como o principado quis ser visto e lembrado.
O que dizem as fontes
A principal fonte textual é o item 12 das Res Gestae, complementado por um verso de Ovídio nos Fastos e por alusões em calendários. O que se sabe sobre o desenho e a iconografia depende do próprio monumento, que é raro por ter sobrevivido em boa parte. Os estudiosos discutem a identificação de vários personagens da procissão, a figura feminina do painel dito de Terra e se o conjunto celebra a paz como ideia ou como resultado militar. Também se debate a relação entre o altar e o relógio solar próximo, que a pesquisa recente tem questionado em parte. A rigor, não sabemos como o público comum de Roma recebia essas imagens.
Figuras envolvidas
- Augusto — o fundador do principado
Fontes consultadas
- Augusto, Res Gestae Divi Augusti Fonte antiga
- Coleção de escultura romana The Metropolitan Museum of Art
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