A República romana não foi projetada. Ela se formou por acúmulo, ao longo de mais de dois séculos de disputa interna, em que cada crise deixou como resíduo uma magistratura nova, um direito conquistado ou um limite estabelecido. O resultado foi um sistema sem constituição escrita, sustentado por costume, precedente e equilíbrio de forças, que se mostrou notavelmente eficaz para conduzir guerras e notavelmente frágil quando essas guerras passaram a durar décadas e a ser travadas longe da Itália.
O conflito das ordens
A primeira metade da história republicana é dominada pela disputa entre patrícios, que monopolizavam cargos e sacerdócios, e plebeus, que formavam a maior parte do exército e da população produtiva. A arma plebeia era simples e devastadora: retirar-se da cidade e parar de servir.
Cada secessão produziu ganhos concretos, a começar pelos tribunos da plebe, magistrados invioláveis com poder de veto. Vieram depois a publicação das leis em tábuas expostas ao público, o direito de casamento entre as ordens, o acesso ao consulado e, por fim, o reconhecimento de que as decisões da assembleia plebeia obrigavam todos os cidadãos.
O desfecho, em 287 a.C., não foi a vitória dos pobres. Foi a fusão das famílias patrícias com as famílias plebeias mais ricas em uma nova elite dirigente. O conflito das ordens ampliou a base do poder sem dissolver a desigualdade que o sustentava.
A máquina da expansão
A conquista da Itália não se explicou apenas por vitórias militares. Roma desenvolveu um sistema de tratados que deixava cada comunidade derrotada com autonomia interna e a obrigava a fornecer soldados. Cada guerra vencida ampliava o contingente disponível para a guerra seguinte.
Foi esse sistema que permitiu absorver derrotas catastróficas. Depois de perder dezenas de milhares de homens em Canas, Roma tinha o que Aníbal não tinha: reservas humanas e aliados que, em sua maioria, não desertaram.
A partir das Guerras Púnicas, o território sob administração romana deixou de ser contíguo e passou a exigir governadores, tributação regular e frotas permanentes. A cidade-estado tornou-se potência imperial antes de ter instituições capazes de administrar um império.
A crise que a vitória produziu
As campanhas longas arruinaram o pequeno proprietário que era a base do recrutamento. Terras concentraram-se em grandes propriedades trabalhadas por pessoas escravizadas, trazidas em massa pelas próprias conquistas. Quando os Gracos tentaram redistribuir terra pública, a resposta foi o assassinato político, inaugurando uma prática que se repetiria por um século.
A reforma militar do fim do século II a.C. abriu o exército aos cidadãos sem patrimônio. Soldados que dependiam do comandante para obter terras ao fim do serviço passaram a ser leais a ele antes que ao Estado. A partir daí, cada general com prestígio dispunha de um instrumento de pressão armado.
Marchas sobre a própria cidade, listas de proscrição, comandos extraordinários e ditaduras sem prazo definido deixaram de ser exceções e tornaram-se recursos disponíveis. A República não foi derrubada em um único golpe: ela foi sendo esvaziada até que a concentração de poder em uma pessoa parecesse, a muitos contemporâneos, preferível ao caos.
Ao ler este período, tenha em conta:
- As instituições republicanas nunca foram fixadas em um texto único; funcionavam por costume e precedente.
- A expansão territorial e a crise social interna são partes do mesmo processo, não fenômenos separados.
- Boa parte das fontes sobre o período final foi escrita por participantes diretos das disputas que narram.