Entre 235 e 284, o império teve mais de vinte governantes reconhecidos e um número incerto de pretendentes. Fronteiras foram rompidas em três frentes ao mesmo tempo, a moeda perdeu quase todo o seu conteúdo de prata, cidades voltaram a construir muralhas e blocos regionais inteiros se separaram do governo central. O que torna esse período notável não é a crise, mas o fato de o Estado romano ter sobrevivido a ela e, em seguida, ter se reconstruído em bases diferentes.
Meio século de pressão simultânea
A ascensão de uma nova dinastia na Pérsia criou, pela primeira vez em séculos, um adversário oriental capaz de campanhas ofensivas em grande escala. No norte, confederações mais amplas substituíram os grupos fragmentados de antes. Enfrentar as duas frentes exigia dividir o exército; concentrá-lo em uma delas significava abrir a outra.
Cada derrota derrubava um imperador, e cada novo imperador precisava comprar a lealdade das tropas, o que pressionava as finanças e acelerava a desvalorização da moeda. A captura de um imperador vivo pelos persas, em 260, marcou o ponto mais baixo do prestígio imperial.
A separação de um bloco ocidental e de um bloco oriental sob comandos próprios não foi, em geral, um movimento separatista de fundo: foram respostas regionais à ausência de defesa central. A reunificação, na década de 270, confirmou isso ao ser aceita com relativa facilidade.
A reconstrução do Estado
A reforma iniciada em 284 partiu de um diagnóstico simples: um só governante não conseguia estar em toda parte. A solução foi dividir o poder entre quatro titulares, com áreas de responsabilidade e uma ordem de sucessão definida, algo que o principado nunca tivera.
Em paralelo, o número de províncias foi multiplicado para reduzir o poder de cada governador, funções civis e militares foram separadas, o exército foi reorganizado entre tropas de fronteira e forças móveis, e a tributação passou a ser calculada sobre unidades de terra e de trabalho, permitindo previsão orçamentária.
O preço foi uma máquina administrativa muito maior, sustentada por uma carga fiscal mais pesada, e um poder imperial que abandonou definitivamente a linguagem republicana em favor de um cerimonial de distância e sacralidade.
A virada religiosa
A mesma administração que promoveu a perseguição mais ampla já movida contra os cristãos foi sucedida, em menos de dez anos, por um governo que legalizou o cristianismo e passou a financiá-lo. A rapidez da inversão é um dos dados mais surpreendentes da história antiga.
A partir daí, o Estado envolveu-se na definição da doutrina: concílios convocados por imperadores, decisões sobre quem era ortodoxo e quem era herege, recursos públicos destinados à construção de igrejas. No fim do século, os cultos tradicionais foram proibidos, e o cristianismo niceno tornou-se a religião oficial.
Essa transformação não apagou práticas antigas de imediato nem foi uniforme entre províncias, mas alterou permanentemente a relação entre autoridade política e autoridade religiosa no mundo mediterrânico.
Ao ler este período, tenha em conta:
- A crise do século III é mal documentada por fontes narrativas; moedas, inscrições e papiros têm peso decisivo.
- A divisão administrativa do território é anterior à divisão política definitiva de 395.
- Reformas fiscais e militares desse período explicam boa parte do que acontece no século seguinte.