Trajetória
Marco Cocceio Nerva nasceu em 30 d.C., em Narnia, na Úmbria, numa família senatorial de prestígio e com tradição jurídica. Fez carreira discreta, mas bem-sucedida, sob os imperadores julio-claudianos e flavianos. Segundo Tácito e outros autores, recebeu honras triunfais por serviços prestados a Nero, na ocasião da conspiração de Pisão, em 65. Foi cônsul em 71 ao lado de Vespasiano e novamente em 90 com Domiciano, o que indica que gozava da confiança dos Flávios. Em 96, já com cerca de 65 anos e sem filhos, tornou-se o candidato dos conspiradores que assassinaram Domiciano e foi aclamado pelo Senado.
O breve governo de Nerva teve por marca a tentativa de reconciliar o principado com a ordem senatorial. Interrompeu os processos por lesa-majestade, anistiou exilados, devolveu bens confiscados e moderou a cobrança do imposto sobre os judeus, tema que suas moedas proclamam. Instituiu uma lei agrária destinada a distribuir terras a cidadãos pobres e deu impulso a programas de auxílio alimentar na Itália, que seu sucessor ampliaria. Apesar disso, a falta de lastro militar o deixou frágil: os pretorianos, liderados por Casperio Eliano, revoltaram-se em 97 e o obrigaram a entregar os assassinos de Domiciano para punição.
Para recuperar autoridade, Nerva adotou, em outubro de 97, Marco Úlpio Trajano, comandante respeitado na Germânia Superior, a quem concedeu também poderes de associado ao governo. A medida neutralizou a crise e firmou um precedente que as gerações seguintes tomariam por norma. Nerva morreu em 28 de janeiro de 98, de causas naturais, após uma febre, ao que relatam as fontes, e seu sucessor assumiu sem qualquer resistência. Foi divinizado, e o culto de sua memória se manteve como parte da legitimação de Trajano, que fez questão de se declarar filho do imperador falecido.
O que importa reter
- Restabeleceu relações cooperativas entre o poder imperial e o Senado
- Sua adoção de Trajano garantiu uma transição sem guerra civil
Legado e julgamento histórico
Tácito, no prólogo do Agrícola, apresentou o governo de Nerva como a união de dois elementos antes tidos por incompatíveis, o principado e a liberdade, e Plínio, o Jovem, partilha dessa visão favorável. Autores modernos lembram que o idoso imperador teve pouco domínio real sobre o exército e foi salvo, em boa medida, pela adoção. Sua principal herança foi justamente esse gesto, que deu origem à prática de escolher o melhor herdeiro e não o parente mais próximo, sustentando a notável estabilidade que caracterizou o século II.
Acontecimentos em que aparece
Assassinato de Domiciano e início dos imperadores adotivos
Uma conspiração palaciana eliminou o último dos flavianos, e o Senado escolheu como sucessor um senador idoso e sem filhos, que adotou como herdeiro um general de prestígio.
- Política e governo
- Roma
- Século I d.C.