Nota de historicidade: Atribuições tradicionais; a reconstrução das fontes é posterior em vários séculos.
Trajetória
Sérvio Túlio é descrito pela tradição como sexto rei de Roma, sucessor de Tarquínio Prisco. A versão mais difundida, de Lívio e de Dionísio de Halicarnasso, diz que nasceu de Ocrísia, uma cativa de Corníclo, e foi criado na casa real. Tanaquil, esposa de Prisco, teria reconhecido nele um destino extraordinário, e o rei lhe deu a filha em casamento. Com o assassinato de Prisco, Tanaquil teria ocultado a morte até que Sérvio assumisse o governo de fato. Uma versão etrusca, preservada no discurso do imperador Cláudio gravado na Tábua de Lyon, identifica-o com Mastarna, companheiro de Célio Vibena. Seu reinado é fixado em 578 a 535 a.C.
A Sérvio atribui-se uma reorganização decisiva da comunidade. Pelo censo, teria classificado os cidadãos segundo o patrimônio em cinco classes, subdivididas em centúrias de seniores e juniores, às quais se somavam as centúrias de cavaleiros e outras de funções específicas. Esse arranjo, de cerca de 193 centúrias, serviu de base ao exército e, mais tarde, aos comícios centuriados. Ele também teria substituído a divisão por tribos gentílicas por quatro tribos urbanas, fundadas no território, e dedicado um templo de Diana no Aventino, associado à aliança com os latinos. As muralhas chamadas servianas, hoje datadas arqueologicamente do século IV a.C., eram atribuídas a ele.
O fim do reinado é narrado de forma dramática. Os filhos de Prisco, insatisfeitos com a perda do trono, e sobretudo Lúcio Tarquínio, filho ou neto do antigo rei, conspiraram com a ambiciosa Túlia, filha de Sérvio. Segundo Lívio, Lúcio entrou na Cúria, sentou-se no trono e atirou o rei idoso escadas abaixo. Sérvio teria sido morto por emissários na rua, e Túlia teria conduzido o carro por sobre o cadáver, o que deu nome ao Vico Celerado. Lívio comenta que alguns acreditavam que Sérvio pretendia abolir a monarquia, ideia que os estudiosos tratam como elaboração posterior, assim como os pormenores do crime.
O que importa reter
- Ligado à criação do censo periódico e à divisão do território em tribos
- Associado por tradição a um primeiro circuito de muralhas da cidade
Legado e julgamento histórico
As fontes antigas o veneravam como o rei dos humildes, que dera a cada cidadão um lugar proporcional ao patrimônio, e Lívio o coloca entre os grandes fundadores. A historiografia moderna considera improvável que um só reinado tenha produzido o sistema descrito, pois a organização por classes e centúrias, ligada ao armamento hoplítico, deve ter evoluído por etapas até o século IV a.C. ou depois. Permaneceu a ideia, central na vida política romana, de que direitos e deveres cívicos se mediam pela riqueza, e os comícios centuriados continuaram a eleger magistrados superiores até o fim da República.
Acontecimentos em que aparece
data tradicional
Reforma censitária atribuída a Sérvio Túlio
A tradição credita ao sexto rei a divisão dos cidadãos em classes segundo o patrimônio, base do recrutamento militar e do voto nos comícios centuriados.
- Direito e instituições
- Roma
- Século VI a.C.