Contexto histórico
Cartago enfrentava uma rebelião violenta de tropas mercenárias não pagas e não tinha condições de reagir. A anexação, feita sob ameaça de nova guerra, foi vista mesmo por autores favoráveis a Roma como abuso de força. O episódio alimentou o ressentimento na família Barca e é apontado por Políbio como uma das causas profundas do conflito seguinte. As ilhas passaram a formar uma segunda província romana.
Como se desenrolou
Depois da paz de 241 a.C., Cartago devia pagar as tropas que havia empregado na Sicília, e a incapacidade de fazê-lo provocou a chamada Guerra dos Mercenários, ou Guerra Inexpiável, entre 241 e 238 a.C. Líbios e mercenários, liderados por Spendius e Mathos, sublevaram-se, e as tropas na Sardenha também se amotinaram, massacrando os oficiais cartagineses. Segundo Políbio, Roma inicialmente recusou os pedidos de ajuda dos rebeldes e chegou a facilitar o abastecimento de Cartago, respeitando o tratado de paz recente. Os combates na África foram de extrema crueldade, com mutilações de prisioneiros, e quase destruíram a cidade antes da vitória final de Amílcar.
A mudança de política ocorreu quando os mercenários da Sardenha, pressionados pelos nativos da ilha, ofereceram-se a Roma. O Senado aceitou a oferta e preparou uma expedição. Os cartagineses, que haviam vencido a revolta graças a Amílcar Barca, protestaram contra a quebra do tratado e planejaram recuperar a ilha. Roma respondeu com uma declaração de guerra. Em 238 a.C., exausta, Cartago cedeu a Sardenha e aceitou pagar mais mil e duzentos talentos, quantia que se somava ao fardo já pesado da indenização da Sicília e das perdas da revolta. Políbio considera o procedimento sem fundamento legítimo e uma das causas do conflito seguinte.
A ocupação efetiva foi lenta. Os romanos enfrentaram resistência dos povos do interior sardo e corso por muitos anos, e aparecem campanhas e triunfos por vitórias sobre sardos e córsegos ao longo da década de 230 a.C. Em 227 a.C., o número de pretores foi aumentado para quatro, com a finalidade de administrar a Sicília e a Sardenha com a Córsega. Era um governo diretamente exercido por magistrados enviados de Roma, que cobravam tributos, e que se distinguia da relação com os aliados itálicos. Esse modelo se repetiria no Ocidente e no Oriente.
O que levou a isso
- Enfraquecimento cartaginês pela revolta dos mercenários
- Interesse romano no controle das rotas do Tirreno
- Ausência de qualquer capacidade cartaginesa de resposta militar
O que veio depois
- Criação da província da Sardenha e Córsega
- Agravamento do ressentimento cartaginês, em especial da família Barca
- Expansão cartaginesa compensatória na Península Ibérica
Importância histórica
É apontado pelas próprias fontes antigas como uma das raízes diretas da Segunda Guerra Púnica.
O que dizem as fontes
Políbio, que condena o ato como pretexto sem justiça, é a fonte principal, e ele próprio afirma que a anexação foi a causa mais grave do ressentimento cartaginês, ao lado da conduta durante a revolta. A tradição pró-romana, representada por autores como Lívio, insiste mais na violação de tratados cometida por Cartago. Os historiadores modernos discutem se Roma agiu por oportunismo estratégico ou por receio real de uma recuperação púnica no Tirreno. Há pouca documentação sobre as campanhas no interior, e a datação exata da organização provincial continua em debate, pois o termo província ainda designava, então, uma esfera de comando e não necessariamente um território administrado de modo permanente.
Fontes consultadas
- Políbio, Histórias, livros I e III Fonte antiga
- The Cambridge Ancient History, vol. VIII Cambridge University Press
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