Sobre a data: O relato do encontro entre o papa Leão I e Átila é transmitido por fontes eclesiásticas e enfatiza a intervenção religiosa; fatores materiais como fome e doença nas tropas são hoje considerados determinantes.
Contexto histórico
A destruição de Aquileia foi tão completa que parte de sua população teria se refugiado nas ilhas da laguna, episódio associado pela tradição às origens de Veneza. Uma embaixada encabeçada pelo bispo de Roma encontrou-se com Átila, e a retirada que se seguiu foi atribuída pela tradição cristã a essa intervenção. Fontes contemporâneas registram também surtos de doença e escassez de suprimentos entre os invasores, além de operações militares orientais contra suas bases.
Como se desenrolou
Em 452, Átila cruzou os Alpes Julianos e sitiou Aquileia, cidade rica e importante nó viário no extremo norte do Adriático. Segundo Jordanes, o cerco durou três meses e só terminou depois que os hunos exploraram uma brecha nas muralhas, ao observar cegonhas abandonando a cidade, episódio de caráter lendário. A cidade foi arrasada de tal modo que, de acordo com o mesmo autor, mal se reconhecia o local. Em seguida, Pádua, Verona, Bréscia, Bérgamo, Milão e Pavia foram saqueadas ou obrigadas a pagar resgate, e os hunos ocuparam o palácio imperial de Milão.
O imperador Valentiniano III deixou Ravena e se retirou para Roma. Aécio, sem tropas suficientes, não pôde enfrentar os hunos em campo aberto e limitou-se a ações de hostilização. Próspero de Aquitânia relata que o Senado e o imperador enviaram uma embaixada com o papa Leão I, o ex-cônsul Avieno e o prefeito Trigécio, que encontrou Átila perto do rio Míncio, nas imediações de Mântua. Não se conhece o conteúdo da conversa. Pouco depois, Átila recuou para além do Danúbio, sem avançar sobre Roma. Jordanes sugere que ele temia o destino de Alarico, que morrera logo após o saque de 410.
Os fatores materiais devem ter pesado. Hidácio registra que os hunos foram atingidos por fome e doença na Itália e que tropas enviadas pelo imperador Marciano atacaram seus territórios no Danúbio. A região do Pó, havia anos castigada, não oferecia mais provisões. Átila, então, voltou à sua capital no mundo danubiano, onde morreu em 453, ao que parece de hemorragia durante a noite de núpcias com Ildico, segundo a narrativa de Prisco transmitida por Jordanes. Seus filhos disputaram o poder, e a confederação huna se desagregou após a derrota na batalha de Nedao, por volta de 454.
O que levou a isso
- Continuidade da campanha huna após o revés na Gália
- Riqueza das cidades do norte da Itália como alvo de saque
- Fragilidade militar do governo ocidental
O que veio depois
- Destruição de Aquileia e devastação de cidades do vale do Pó
- Retirada huna sem ataque a Roma
- Dissolução do poder huno pouco depois, com a morte de Átila em 453
Importância histórica
Episódio central na memória europeia sobre as invasões do século V e exemplo de como fatores materiais e narrativas religiosas se misturam nas fontes.
O que dizem as fontes
Próspero, contemporâneo, atesta a embaixada, mas não afirma que a retirada foi um milagre; essa leitura se consolidou depois, na tradição cristã, e aparece com mais força em fontes posteriores. Hidácio é a principal fonte para a hipótese de doença e de ataque pelo Danúbio. Jordanes, que usa Prisco, deve ser tratado com cuidado, pois mistura documentos com episódios de cunho lendário. Arqueologicamente, a destruição de Aquileia é sustentada por indícios, mas parte deles tem sido reinterpretada, e a ligação com a fundação de Veneza é tradição tardia. Autores como Peter Heather e Michael Maas discutem o peso relativo da diplomacia, da logística e da doença, sem chegar a consenso.
Figuras envolvidas
- Valentiniano III — o imperador da perda da África
- Átila
- Leão I
Fontes consultadas
- Jordanes, Getica Fonte antiga
- Prosper de Aquitânia, Crônica Fonte antiga
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