Contexto histórico
Alarico não pretendia destruir o império: buscava terras, provisões e um cargo militar reconhecido para seu povo. A recusa da corte de Ravena em negociar de boa-fé levou ao cerco e ao saque. O impacto material foi limitado se comparado ao simbólico: a notícia percorreu todo o Mediterrâneo e provocou uma crise de interpretação. Agostinho de Hipona escreveu sua obra mais influente em resposta à acusação de que o abandono dos deuses tradicionais teria causado a catástrofe.
Como se desenrolou
O saque de 410 foi o desfecho de três cercos. No primeiro, em 408, Alarico bloqueou a cidade e aceitou um resgate que Zósimo detalha: cinco mil libras de ouro, trinta mil de prata, quatro mil túnicas de seda, três mil peles tingidas de púrpura e três mil libras de pimenta. Em 409, voltou e, diante da recusa de Honório, obrigou o Senado a aceitar como imperador o prefeito Prisco Átalo, que o nomeou comandante militar. Átalo, porém, mostrou-se pouco dócil, e Alarico o depôs em 410. As conversações com Honório fracassaram de novo, desta vez após um ataque de Saro, chefe godo rival, ao acampamento de Alarico.
Em agosto de 410, Alarico pôs a cidade em cerco pela terceira vez. Segundo a tradição transmitida por Procópio, escravos ou aliados abriram a Porta Salária na noite de 24 de agosto, permitindo a entrada dos godos; outras fontes falam em traição de um grupo de nobres. Durante três dias, as tropas de Alarico saquearam casas e palácios, queimaram edifícios como o palácio de Salústio e levaram cativos. Os historiadores cristãos Orósio e Agostinho destacam que Alarico ordenou respeito às igrejas, e as basílicas de São Pedro e São Paulo teriam servido de refúgio a quem ali se abrigou.
Depois do saque, os godos deixaram Roma e desceram pela Campânia rumo ao sul, levando entre os prisioneiros Gala Placídia, irmã do imperador. Alarico pretendia passar à África, de onde vinham os grãos de Roma, mas sua frota foi dispersa por uma tempestade no estreito de Messina. Pouco depois ele morreu na Calábria, em Cosenza, no fim de 410, e foi sucedido pelo cunhado Ataulfo. A tradição de que o rio Busento teria sido desviado para enterrar o rei em segredo vem de Jordanes, séculos depois, e não encontra confirmação arqueológica.
O que levou a isso
- Fracasso das negociações entre Alarico e a corte de Ravena
- Deserção de milhares de soldados após o massacre de suas famílias
- Incapacidade militar do governo ocidental de defender a capital
O que veio depois
- Três dias de saque e enorme repercussão simbólica em todo o Mediterrâneo
- Debate intelectual sobre as causas da decadência, que gerou obras duradouras
- Assentamento posterior dos visigodos como poder autônomo na Gália
Importância histórica
Choque simbólico que marcou a consciência do mundo antigo tardio e alimentou por séculos o debate sobre a decadência de Roma.
O que dizem as fontes
O saque é bem documentado por testemunhos contemporâneos: Jerônimo, em cartas como a 127, lamenta a queda da cidade; Agostinho a comenta em sermões e em A Cidade de Deus; Orósio a reduz propositalmente em sua História contra os Pagãos para defender a providência cristã. O relato de Zósimo, pagão, atribui a catástrofe ao abandono dos ritos tradicionais. A arqueologia, por sua vez, oferece poucos vestígios claros de destruição, o que leva alguns estudiosos, como Bryan Ward-Perkins, a ressalvar que o impacto material foi menor do que a repercussão simbólica. As narrativas de traição pela Porta Salária e de extrema violência trazem elementos literários que impedem tomá-las como descrição literal.
Figuras envolvidas
- Honório — o imperador do saque de 410
- Alarico
- Agostinho de Hipona
Fontes consultadas
- Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus Fonte antiga
- Jordanes, Getica Fonte antiga
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