Contexto histórico
A abdicação foi um ato sem precedentes: nenhum imperador havia deixado o poder por vontade própria e sobrevivido no ostracismo. O plano previa a promoção automática dos subordinados e a nomeação de novos auxiliares. Mas os filhos dos governantes anteriores tinham apoio militar próprio. Ao morrer seu pai na Britânia, Constantino foi aclamado pelas tropas, iniciando quase duas décadas de guerras civis que só terminariam com sua vitória total.
Como se desenrolou
A abdicação ocorreu em 1º de maio de 305. Em Nicomédia, numa colina fora da cidade, Diocleciano despiu o manto púrpura diante das tropas e anunciou a retirada, enquanto, em Milão, Maximiano fazia o mesmo, ainda que, segundo as fontes, a contragosto. Os novos Césares, anunciados nessa ocasião, surpreenderam. Em vez de Constantino, filho de Constâncio, e de Maxêncio, filho de Maximiano, foram escolhidos Severo, para o Ocidente, e Maximino Daia, sobrinho de Galério, para o Oriente. Segundo Lactâncio, Galério forçara a decisão, e Diocleciano cedeu. Constâncio e Galério passaram a ser Augustos, e a sucessão pareceu bem encaminhada, mas excluiu os herdeiros de sangue.
Diocleciano retirou-se para o palácio que mandara construir perto de Salona, na Dalmácia, hoje Split, onde viveu até cerca de 311 ou 312, a data é incerta. Constantino, que estava na corte de Galério, conseguiu reunir-se ao pai na Britânia e acompanhou-o em campanha contra os pictos. Constâncio morreu em Eboraco, hoje Iorque, em 25 de julho de 306. As tropas aclamaram Constantino, com o apoio, segundo algumas fontes, do rei alamano Croco. Galério não aceitou o fato por completo: reconheceu-o como César, não como Augusto, e elevou Severo ao posto superior no Ocidente. Foi uma solução de compromisso, que preservava a letra da regra sucessória.
O arranjo não durou. Em outubro de 306, Maxêncio foi aclamado em Roma, com apoio da guarda pretoriana e do povo, descontentes com a perda da centralidade da cidade, e chamou o pai Maximiano de volta ao poder. Severo, enviado contra eles, foi abandonado pelos soldados e morreu em 307. Na conferência de Carnunto, em 308, tentou-se um acordo, com Licínio elevado a Augusto, mas a disputa continuou, e por volta de 310 havia quatro ou cinco homens com títulos imperiais. Diocleciano recusou o pedido de retomar o poder, que lhe fizeram. A estabilidade só voltaria com as vitórias de Constantino sobre Maxêncio em 312 e sobre Licínio em 324.
O que levou a isso
- Decisão pessoal de Diocleciano de testar a regra sucessória que havia criado
- Existência de herdeiros biológicos com apoio de exércitos regionais
- Fragilidade de um sistema dependente da autoridade de um único homem
O que veio depois
- Proclamação de Constantino pelas tropas na Britânia
- Sequência de guerras civis entre pretendentes ao poder
- Retorno definitivo do princípio dinástico na sucessão imperial
Importância histórica
Demonstra os limites de qualquer solução institucional para a sucessão em um regime cuja legitimidade dependia do exército.
O que dizem as fontes
O relato mais detalhado vem de Lactâncio, que escreve com forte intenção polêmica, pintando Galério como vilão e Diocleciano como figura manipulada e humilhada; essa leitura deve ser tomada com cautela. Zósimo e Aurélio Víctor completam o quadro com informações mais curtas. Inscrições, moedas e panegíricos ajudam a datar os atos e a medir o reconhecimento de cada governante. Não está claro se a abdicação foi um plano deliberado, previsto desde 293, ou resultado da saúde debilitada do imperador, como alguns autores sugerem. Debate-se também o grau de influência de Galério na escolha dos Césares e o momento exato da morte de Diocleciano. Em todo caso, o episódio mostra como a regra sucessória dependia de equilíbrios militares que ela mesma não podia garantir.
Figuras envolvidas
- Diocleciano — o reformador do Estado
- Constantino — o imperador que mudou a religião do Estado
- Maximiano
Fontes consultadas
- Lactâncio, Sobre a morte dos perseguidores Fonte antiga
- Zósimo, História Nova, livro II Fonte antiga
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