Contexto histórico
O arranjo era pragmático: o governo não tinha como expulsá-los nem como pagá-los, e cedeu recursos fundiários em troca de força militar. Formalmente, os visigodos eram aliados sob tratado; na prática, administravam o território com autoridade própria e expandiriam seu domínio nas décadas seguintes, inclusive sobre a Hispânia. O modelo se repetiria com outros grupos, transformando a geografia política do ocidente sem que houvesse, em nenhum momento, uma declaração formal de perda de território.
Como se desenrolou
Depois da morte de Alarico, os godos seguiram o novo rei Ataulfo para a Gália, em 412, e mais tarde para a Hispânia. Ataulfo casou-se em Narbona, em 414, com Gala Placídia, e foi assassinado em Barcelona em 415. Seu sucessor Sigérico durou poucos dias, e o trono passou a Vália. O general Constâncio, que dominava a corte de Honório, bloqueou os portos e cortou o abastecimento dos godos, forçando-os a negociar. Vália devolveu Placídia em 416 e recebeu grãos, passando a combater, em nome do Império, os vândalos silingos e os alanos na Hispânia entre 416 e 418, com vitórias que reduziram drasticamente esses povos.
Cumprida a campanha, Constâncio chamou os godos de volta. Em 418, eles receberam terras na Aquitânia Secunda e em regiões vizinhas da Novempopulana, com capital em Tolosa. Os documentos do acordo não sobreviveram, e as fontes, como Próspero e Hidácio, são lacônicas. A forma de partilha é debatida: a lei visigoda posterior fala de dois terços das terras, mas o historiador Walter Goffart propôs que a divisão teria incidido sobre receitas fiscais, e não sobre propriedades. Vália morreu em 418, e Teodorico I, seu sucessor, governaria até 451, consolidando a presença goda no sudoeste da Gália durante mais de três décadas de reinado.
O arranjo tinha limites claros, mas eles se mostraram elásticos. Os visigodos permaneceram sujeitos, em teoria, a Ravena, e Teodorico I serviu como aliado em várias campanhas. Contudo, em 425 e 436 ele tentou se apoderar de Arles e de Narbona, e foi contido por Aécio. Tolosa tornou-se centro de uma corte que atraiu a aristocracia gaulesa, e Sidônio Apolinário a descreveria mais tarde. Após a queda de Roma, os reis visigodos, como Eurico, romperam o vínculo formal e estenderam o poder a boa parte da Hispânia e ao sul da Gália.
O que levou a isso
- Impossibilidade militar de expulsar os visigodos do território imperial
- Falta de recursos fiscais para remunerar tropas aliadas em dinheiro
- Necessidade de força militar contra outros grupos instalados na Hispânia
O que veio depois
- Criação do primeiro reino autônomo formalmente instalado em solo imperial
- Repetição do modelo com outros grupos armados nas décadas seguintes
- Transferência gradual de receitas fundiárias do Estado para poderes locais
Importância histórica
Mostra o mecanismo concreto pelo qual o Ocidente romano foi substituído por reinos: não por conquista declarada, mas por acordos sucessivos de assentamento.
O que dizem as fontes
Quase tudo o que sabemos sobre 418 vem de crônicas curtas, como as de Próspero de Aquitânia e Hidácio, e de Orósio, que escreve antes. Nenhuma preserva o texto do tratado. A discussão central diz respeito à hospitalitas, o regime de acolhimento: a leitura tradicional falava em confisco de dois terços das propriedades, enquanto Goffart, em Barbarians and Romans, defendeu a ideia de partilha de impostos, tese influente mas contestada por pesquisadores como Jean Durliat e Peter Heather em sentidos distintos. A arqueologia, sobretudo funerária, tem dificuldade para distinguir godos de romanos, o que limita qualquer estimativa do número de colonos. O resultado é um acordo claro nos efeitos, e nebuloso nos detalhes.
Figuras envolvidas
- Honório — o imperador do saque de 410
- Valia
Fontes consultadas
- Jordanes, Getica Fonte antiga
- Peter Heather, The Fall of the Roman Empire: A New History Oxford University Press
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