Contexto histórico
As províncias africanas forneciam trigo, azeite e impostos indispensáveis para sustentar a Itália e o exército ocidental. A perda foi economicamente fatal: sem essas receitas, o governo não conseguia mais pagar tropas suficientes para retomar territórios, o que reduzia ainda mais sua base fiscal, em um ciclo do qual não houve saída. Os vândalos construíram uma frota e passaram a dominar rotas do Mediterrâneo ocidental. Duas expedições imperiais de reconquista fracassaram.
Como se desenrolou
Em maio de 429, Genserico, rei dos vândalos e alanos, atravessou o estreito de Gibraltar rumo à Mauritânia. Procópio, escrevendo cerca de um século depois, afirma que o grupo somava oitenta mil pessoas, número que a maioria dos historiadores considera uma estimativa de contagem global, incluindo mulheres e crianças, e talvez exagerada. A chegada coincidiu com a disputa entre o conde Bonifácio, comandante na África, e a corte de Ravena, que o declarara rebelde. Bonifácio, depois reconciliado, tentou deter os invasores, mas foi derrotado, e as cidades da Numídia e da Mauritânia caíram em sequência.
O cerco de Hipona durou cerca de catorze meses, a partir de 430, e foi vivido por Agostinho, que morreu na cidade em agosto daquele ano. Em 435, Roma firmou com Genserico um tratado que lhe reconhecia o controle da Numídia e das Mauritânias, deixando a Proconsular, em torno de Cartago, ao Império. O rei rompeu o acordo: em 19 de outubro de 439, ocupou Cartago sem grande resistência, aproveitando a ausência de tropas. A cidade foi tomada com seus estoques e tesouros, e a aristocracia fundiária foi em boa parte expropriada, ao passo que o clero niceno sofreu perseguições, como relata Vítor de Vita.
Cartago passou a servir de base para a frota vândala. Em 440 e 441, ela ameaçou a Sicília, e uma expedição combinada de Oriente e Ocidente, enviada em 441, não obteve resultado. Em 455, esses navios saquearam Roma. Em 460, o imperador Majoriano perdeu em Cartagena, na Hispânia, uma frota preparada para a campanha africana. Em 468, uma grande armada oriental, comandada por Basilisco, foi destruída diante do cabo Bon. Em 476, o imperador Zenão fez a paz com Genserico, e o reino vândalo sobreviveu até 533, quando foi derrotado pelas forças de Belisário.
O que levou a isso
- Deslocamento dos vândalos da Hispânia diante da pressão visigoda
- Fragilidade das defesas africanas, distantes das frentes principais
- Conflitos internos na administração ocidental que atrasaram a reação
O que veio depois
- Perda das receitas fiscais e do abastecimento de grãos da África
- Formação de um poder naval vândalo no Mediterrâneo ocidental
- Incapacidade definitiva do governo ocidental de financiar exércitos de reconquista
Importância histórica
Golpe econômico decisivo: sem a África, o Império do Ocidente perdeu a base material que lhe permitiria reagir.
O que dizem as fontes
As fontes vêm principalmente de Procópio, que escreve a campanha de Belisário e traz a visão bizantina dos vândalos, e de Vítor de Vita, bispo niceno cujo relato sobre a perseguição é polêmico. Os números de Procópio, como os oitenta mil, são fontes de debate; Walter Pohl e outros observam que cifras de povos migrantes são difíceis de verificar. A arqueologia africana indica continuidade em várias cidades e economias ativas sob os vândalos, e as Tabuinhas Albertini revelam transações de terra no sul da Numídia no fim do século V. Desse modo, a ideia de uma ruptura total é contestada, e Andy Merrills e Richard Miles sustentam uma leitura mais matizada.
Figuras envolvidas
- Valentiniano III — o imperador da perda da África
- Genserico
Fontes consultadas
- Procópio de Cesareia, Guerra Vandálica Fonte antiga
- Peter Heather, The Fall of the Roman Empire: A New History Oxford University Press
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