Contexto histórico
Estilicão havia contido invasões sucessivas e negociado acordos que mantinham o ocidente funcionando. Sua queda foi obra de intrigas na corte de Ravena, que via com desconfiança seu poder e sua origem. Após a execução, tropas romanas mataram famílias de soldados de origem germânica alojadas em cidades italianas. Cerca de trinta mil desses soldados desertaram e se juntaram a Alarico, alterando de imediato o equilíbrio militar da Itália.
Como se desenrolou
A queda de Estilicão veio em poucos meses. Em maio de 408 morreu Arcádio, imperador do Oriente, e Estilicão defendeu que ele próprio fosse a Constantinopla cuidar da sucessão do jovem Teodósio II, projeto que Honório e seus conselheiros viram com suspeita. Pouco antes, o Senado romano, por insistência dele, havia votado o pagamento de quatro mil libras de ouro a Alarico, o que alimentou a acusação de que o general negociava com o inimigo. O funcionário palaciano Olímpio, instalado em Ticino, onde o exército se reunia, trabalhou para convencer as tropas de que o comandante conspirava contra o imperador.
Em agosto, soldados amotinaram-se em Ticino e mataram vários altos funcionários leais a Estilicão. Ele estava em Bolonha e, ao saber do levante, hesitou: seus aliados federados quiseram reagir pelas armas, mas ele recusou. Seguiu para Ravena e buscou asilo numa igreja. Retirado do templo sob a garantia de que sua vida seria poupada, foi executado em 22 de agosto de 408, segundo as fontes, quando se leu a ordem imperial de morte. Seu filho Euquério foi morto pouco depois, e Honório repudiou a esposa Termância, filha de Estilicão, com quem se casara em sequência à irmã dela, Maria.
A reação em cadeia foi rápida. Em várias cidades italianas, soldados romanos atacaram as famílias dos federados de origem bárbara, que viviam sob proteção do Estado, e delas fizeram um massacre. Os homens atingidos, em número que Zósimo avalia em cerca de trinta mil, abandonaram o serviço e marcharam rumo a Alarico, que então se encontrava no Nórico. Com esse reforço, o chefe godo cruzou os Alpes e chegou diante de Roma ainda em 408. Honório recusou todas as propostas de acordo e permaneceu em Ravena, cercada de pântanos e protegida por sua posição, deixando a capital antiga à própria sorte.
O que levou a isso
- Intrigas da corte de Ravena contra o poder acumulado pelo comandante
- Desconfiança em relação à sua origem e a suas negociações com Alarico
- Fragilidade política do imperador diante de facções palacianas
O que veio depois
- Perda do único comandante capaz de coordenar a defesa do ocidente
- Deserção em massa de soldados aliados para as forças de Alarico
- Caminho aberto para as invasões da Itália nos anos seguintes
Importância histórica
Exemplo claro de como conflitos internos, e não apenas pressões externas, aceleraram o colapso do poder imperial no Ocidente.
O que dizem as fontes
O relato mais detalhado é o de Zósimo, escrito no início do século VI, que depende em parte de Olimpiodoro de Tebas e tende a retratar Estilicão de modo favorável. Orósio e Jerônimo, ao contrário, o apresentam como traidor, e o poeta Claudiano, panegirista do general, só escreve até cerca de 404. Por isso, a acusação de que Estilicão pretendia colocar o próprio filho no trono oriental, ou se aliar a Alarico, não pode ser confirmada. A historiografia moderna, de Peter Heather a Michael Kulikowski, discute se ele era o salvador do Ocidente ou um político cujas escolhas agravaram a crise. O número de desertores também é incerto, pois Zósimo o fornece sem corroboração independente.
Figuras envolvidas
- Honório — o imperador do saque de 410
- Estilicão
- Alarico
Fontes consultadas
- Zósimo, História Nova, livro V Fonte antiga
- Averil Cameron, The Later Roman Empire Fontana Press
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