Sobre a data: A leitura do confronto como choque entre paganismo e cristianismo aparece sobretudo em fontes posteriores e é hoje considerada uma simplificação.
Contexto histórico
A batalha foi extremamente sangrenta e envolveu contingentes godos em grande número no exército vencedor, o que reduziu ainda mais a capacidade militar disponível. Estilicão, oficial de origem vândala, destacou-se na campanha e assumiria em seguida a tutela militar do ocidente. A vitória restabeleceu a unidade por poucos meses, mas o esgotamento militar resultante enfraqueceu justamente a metade ocidental.
Como se desenrolou
A crise começou em maio de 392, quando Valentiniano II foi encontrado morto em Viena, na Gália, em circunstâncias discutidas, entre suicídio e assassinato. O general franco Arbogasto, que controlava o exército ocidental, nomeou imperador o mestre de retórica Eugênio, que foi proclamado em agosto. Teodósio não o reconheceu, embora houvesse negociações iniciais. Eugênio buscou apoio de aristocratas romanos, e tolerou a restauração de alguns rituais tradicionais, o que depois deu à guerra uma coloração religiosa. Teodósio preparou o exército por dois anos, nomeou seu filho Honório augusto e reuniu tropas imperiais, além de aliados godos, sob chefes como Gainas, Saul e Bacurio.
O confronto ocorreu em 5 e 6 de setembro de 394, no vale do rio Frígido, o atual Vipava, na região dos Alpes Julianos. No primeiro dia, as tropas orientais, entre elas os godos federados na vanguarda, atacaram o passo sem sucesso e sofreram perdas pesadas. Segundo relatos, Teodósio passou a noite em oração, enquanto emissários de Eugênio tentavam negociar com oficiais do imperador. No segundo dia, um vento violento, que as fontes chamam de boreal e que corresponde ao que a região conhece como bora, soprou contra os soldados ocidentais, desordenando suas fileiras. A resistência desmoronou.
Eugênio foi capturado e executado diante de Teodósio. Arbogasto escapou e, alguns dias depois, matou-se. O imperador permaneceu na Itália, instalou-se em Milão e convocou o filho Honório. Conferiu cargos a aliados e reorganizou a administração ocidental. Nos meses seguintes, porém, sua saúde se deteriorou, e ele morreu em janeiro de 395. O exército ocidental ficou desfalcado, e o oriental, que havia contado com grande número de tropas godas, voltou parcialmente sem ordem. Esse cenário contribuiu para a insegurança que marcaria o governo de Honório, sob a tutela de Estilicão, nos primeiros anos do século V.
O que levou a isso
- Usurpação do poder no ocidente após a morte do imperador Valentiniano II
- Recusa de Teodósio em reconhecer o governo instalado na Itália
- Disputa pelo controle das províncias e dos recursos ocidentais
O que veio depois
- Reunificação temporária de todo o império sob um único governante
- Perdas militares severas, especialmente nas forças ocidentais
- Ascensão de Estilicão como comandante efetivo do ocidente
Importância histórica
Última vez que um único imperador governou todo o mundo romano, poucos meses antes da divisão que se tornaria definitiva.
O que dizem as fontes
As fontes sobre o Frígido são parciais e fortemente moldadas pela religião. Rufino de Aquileia, Agostinho, Orósio e Claudiano descrevem a batalha como vitória da fé cristã, com milagre do vento, enquanto Zósimo e outros textos oferecem detalhes diferentes e menos favoráveis. Daí vêm as dúvidas sobre números, perdas e detalhes táticos, e sobre a morte de Valentiniano II. Historiadores modernos tendem a ler o conflito como disputa de poder entre generais e cortes, não como guerra de religião. A localização exata dos combates foi discutida, e a identificação de Eugênio com um partido pagão coeso é hoje vista com ceticismo.
Figuras envolvidas
- Teodósio I — o último a governar todo o império
- Eugênio
- Arbogasto
- Estilicão
Fontes consultadas
- Zósimo, História Nova, livro IV Fonte antiga
- Peter Heather, The Fall of the Roman Empire: A New History Oxford University Press
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