Ir para o conteúdo
DigitalTitleTrace Cronologia do mundo romano

Guerra das Gálias

Em oito campanhas, César submeteu os povos gauleses, cruzou o Reno e desembarcou na Britânia, acumulando riqueza, prestígio e um exército pessoalmente leal.

  • Guerra e conquista
  • República
  • Gália, entre os Alpes, o Reno e o Atlântico
  • Século I a.C.
Acontecimento 61 de 144 42 % do percurso

Sobre a data: A principal fonte é o relato do próprio comandante, escrito para leitores romanos e com objetivos políticos explícitos, o que exige leitura crítica dos números e das justificativas apresentadas.

Contexto histórico

A conquista foi conduzida com brutalidade extrema, incluindo massacres e escravização em massa registrados pelo próprio César. Do ponto de vista romano, a Gália trouxe território extenso, recursos e uma fronteira definida no Reno. Do ponto de vista político interno, deu a César aquilo que faltava para competir com Pompeu: dinheiro, glória militar e dez legiões veteranas. O relato que publicou, escrito em estilo direto e aparentemente objetivo, foi também um instrumento de propaganda dirigido à opinião pública romana.

Como se desenrolou

A guerra começou em 58 a.C. com a migração dos helvécios, que César impediu de atravessar a província romana e derrotou perto de Bibracte, obrigando os sobreviventes a voltar ao território de origem. Em seguida, atendendo ao pedido de povos gauleses, enfrentou o chefe germano Ariovisto, instalado entre os séquanos, e o expulsou para além do Reno. Em 57, voltou-se contra a confederação dos belgas, e o combate mais duro ocorreu junto ao rio Sabis, contra os nérvios, quando as legiões estiveram perto da derrota. Em 56, o legado Públio Crasso submeteu a Aquitânia, e uma frota construída às pressas foi decisiva contra os vênetos, povo marítimo da costa atlântica.

Em 55 a.C., depois de massacrar usípetes e tencteros que haviam cruzado o Reno, César mandou erguer uma ponte de madeira sobre o rio, concluída, segundo ele, em dez dias, e fez uma breve incursão na Germânia. No fim do verão, desembarcou na Britânia com duas legiões e ficou ali poucas semanas. A segunda expedição, em 54, foi maior, com cinco legiões e cavalaria, e obteve a submissão nominal do chefe Cassivelauno, mas sem ocupação duradoura. Naquele inverno, o chefe eburão Ambiórix aniquilou uma força de cerca de uma legião e meia em Atuatuca, dando início a uma série de revoltas que César reprimiu com campanhas punitivas em 53.

Em Roma, a guerra foi acompanhada por intensa propaganda. O Senado decretou dias de ação de graças em honra de César, quinze em 57 e vinte em 55 a.C., prazos sem precedentes. Os Comentários circularam em livros sucessivos, e o oitavo, sobre o último ano, foi redigido por Aulo Hírcio, oficial de César. Os custos humanos, porém, eram contestados: Plínio, o Velho, fala em mais de um milhão de mortos, e Plutarco e Apiano dão cifras do mesmo porte, números que os historiadores modernos tratam com muita reserva. Segundo Plutarco, Catão chegou a propor que César fosse entregue aos germanos pelo massacre de 55, sinal de que parte do Senado via a campanha como violação do direito de guerra.

O que levou a isso

  • Necessidade de César de obter glória militar e recursos financeiros
  • Movimentações de povos gauleses e germânicos usadas como justificativa
  • Comando plurianual obtido graças ao pacto triunviral

O que veio depois

  • Incorporação da Gália ao domínio romano e fixação da fronteira no Reno
  • Enriquecimento de César e formação de um exército pessoalmente leal
  • Desequilíbrio de poder que tornou inevitável o confronto com Pompeu

Importância histórica

Amplia enormemente o território romano no ocidente e cria as condições materiais da guerra civil que encerraria a República.

O que dizem as fontes

Os Comentários são a fonte quase única e, por isso, o maior problema: César escreve em terceira pessoa, com prosa seca, e apresenta cada campanha como defesa de Roma ou de seus aliados. Números de inimigos e de baixas não podem ser conferidos. A arqueologia ajuda, com oppida como Bibracte, acampamentos e armamento, mas raramente permite casar um achado com um episódio. Adrian Goldsworthy, em sua biografia de César, trata a obra como peça política cuidadosamente composta. Os estudiosos discutem se o texto foi publicado de uma vez ou por partes e quanto de sua aparente neutralidade é artifício. A voz dos gauleses chega apenas filtrada pelo conquistador.

Figuras envolvidas

  • Júlio César — o general que encerrou a República
  • Vercingetórix

Fontes consultadas

  1. Júlio César, Comentários sobre a Guerra das Gálias Fonte antiga
  2. Adrian Goldsworthy, Caesar: Life of a Colossus Yale University Press

Acontecimentos relacionados