Sobre a data: O acordo era informal e privado; não houve qualquer instituição pública com esse nome. O termo é uma designação moderna consagrada pelo uso.
Contexto histórico
Pompeu precisava ratificar seus atos no Oriente e assentar veteranos; Crasso queria revisar contratos fiscais em favor de aliados financeiros; César buscava o consulado e um comando militar de peso. Isoladamente, os três eram bloqueados pela oposição senatorial. Unidos, controlavam eleições, assembleias e legislação. O pacto foi selado por casamento entre as famílias e funcionou por anos, esvaziando na prática o poder decisório do Senado sem alterar formalmente nenhuma instituição.
Como se desenrolou
Quando voltou da Hispânia Ulterior, no verão de 60 a.C., César queria duas coisas ao mesmo tempo: o triunfo pelas campanhas e a candidatura ao consulado. A lei exigia que o comandante vitorioso esperasse diante da cidade para triunfar, enquanto os candidatos precisavam se registrar pessoalmente em Roma. Catão, falando até o fim da sessão, impediu que César fosse aceito à revelia, e ele abriu mão do triunfo para disputar a eleição. Eleito para 59 a.C., recebeu como colega Bíbulo, escolhido pela facção senatorial para contê-lo. Foi nesse impasse que César aproximou Pompeu, ressentido com a demora do Senado, e Crasso, rico e influente entre os publicanos, os empresários que arrematavam a cobrança de tributos.
Durante o consulado, o acordo mostrou como funcionava. César propôs leis agrárias que distribuíam terras públicas, sobretudo na Campânia, a veteranos de Pompeu e a cidadãos pobres com muitos filhos. Diante da obstrução do Senado, recorreu direto à assembleia popular, enquanto Bíbulo se recolheu em casa, observando sinais celestes para declarar os atos inválidos, sem efeito prático. Outra medida ratificou os arranjos de Pompeu no Oriente. Os publicanos da Ásia, próximos de Crasso, obtiveram redução de um terço do valor que haviam se comprometido a pagar. Pompeu casou-se com Júlia, filha de César, e o tribuno Públio Vatínio fez aprovar o comando sobre a Gália Cisalpina e o Ilírico, ao qual o Senado acrescentou a Gália Transalpina.
O pacto não foi estático e precisou de remendos. Depois do consulado, César partiu para a Gália, e Clódio, tribuno em 58 a.C., passou a agir sem controle em Roma, chegando a hostilizar o próprio Pompeu. Em abril de 56 a.C., os três se reuniram em Luca, na Cisalpina, e, segundo as fontes, grande número de senadores e magistrados foi procurá-los. Combinou-se que Pompeu e Crasso seriam cônsules em 55 e receberiam depois comandos de cinco anos, na Hispânia e na Síria, enquanto o de César era prorrogado. A morte de Júlia, em 54, e a de Crasso contra os partas, em Carras, em 53, retiraram os dois pilares que seguravam a aliança.
O que levou a isso
- Recusa do Senado em ratificar os atos de Pompeu no Oriente
- Interesses financeiros de Crasso em contratos de arrecadação
- Ambição de César por consulado e comando militar prolongado
O que veio depois
- Consulado de César e atribuição de um comando plurianual na Gália
- Esvaziamento prático da autoridade deliberativa do Senado
- Concentração de poder em um pacto privado entre três indivíduos
Importância histórica
Demonstra que o poder real havia migrado das instituições para acordos pessoais entre detentores de exércitos e dinheiro.
O que dizem as fontes
A expressão primeiro triunvirato não vem das fontes antigas: o acordo era privado e não tinha nome oficial, ao contrário do triunvirato de 43 a.C. Os relatos mais completos, de Plutarco, Suetônio, Apiano e Dião Cássio, foram escritos muito depois, embora as cartas de Cícero, contemporâneas dos fatos, registrem a inquietação com o poder dos três. Discute-se o grau de coesão da aliança e se ela foi um pacto firme ou uma convergência de conveniências, leitura próxima da de Ronald Syme em The Roman Revolution. O conteúdo exato das negociações, por ser sigiloso, não chegou até nós, e os motivos de cada participante são reconstruídos a partir de seus atos posteriores.
Figuras envolvidas
- Júlio César — o general que encerrou a República
- Pompeu, o Grande — o comandante dos poderes extraordinários
- Marco Licínio Crasso — o financista do triunvirato
- Pompeu
Fontes consultadas
- Plutarco, Vidas Paralelas: César, Pompeu e Crasso Fonte antiga
- Ronald Syme, The Roman Revolution Oxford University Press
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