Contexto histórico
Um tribuno transferiu por votação popular o comando da campanha contra Mitrídates de Sula para Mário. Em vez de acatar, Sula apelou às suas tropas, que o seguiram: para os soldados, o comando significava espólio e assentamento futuro. A cidade foi tomada, adversários foram declarados inimigos públicos e o tribuno responsável, executado. Ficou demonstrado que legiões leais a um general podiam decidir disputas internas pela força, lição que seria repetida sistematicamente nas décadas seguintes.
Como se desenrolou
Em 88 a.C., Lúcio Cornélio Sula, cônsul, recebeu por sorteio a guerra contra Mitrídates VI. Enquanto ele estava em Nola, onde completava o cerco de rebeldes samnitas, o tribuno Públio Sulpício Rufo, aliado de Mário, apresentou leis que distribuíam os novos cidadãos e libertos entre todas as tribos e chamavam de volta exilados. Para impedir a votação, Sula e o colega Quinto Pompeu Rufo declararam um período de suspensão dos negócios públicos. Houve violência em Roma: o filho de Pompeu Rufo foi morto, e Sula, perseguido, teve de refugiar-se na casa de Mário e aceitar revogar a suspensão. As leis passaram, e uma lei popular transferiu o comando oriental a Mário.
Sula voltou ao acampamento de Nola e falou às legiões, segundo Apiano seis, reunindo cerca de trinta e cinco mil homens. Os soldados, temendo perder a campanha e seus ganhos, apoiaram-no. Mário enviou tribunos militares para assumir o exército, e a tropa os apedrejou. Quase todos os oficiais superiores de Sula, exceto um questor, recusaram-se a marchar contra a cidade e fugiram. Sula avançou mesmo assim, ignorando a proibição religiosa e constitucional de levar tropas armadas ao interior do pomério. Enviados do Senado pediram que parasse; ele prometeu apenas que consultaria seu conselho. Entrou em Roma por mais de um ponto, em combate de rua rapidamente resolvido.
Mário e seus partidários não conseguiram organizar resistência, apesar de terem armado escravos prometendo liberdade, e fugiram. O Senado, sob pressão, declarou inimigos públicos Mário, Sulpício e mais dez pessoas. Sulpício foi traído por um escravo e morto; Mário escapou depois de aventuras em pântanos e na costa, indo à África. Sula, para consolidar a posição, fez aprovar leis que subordinavam as propostas dos tribunos à aprovação prévia do Senado e reformavam a votação por centúrias. Em seguida partiu para o Oriente, em 87 a.C. A ausência permitiu o retorno de Cinna e de Mário, que ocuparam Roma e vingaram-se com massacres.
O que levou a isso
- Disputa pelo comando lucrativo da guerra contra Mitrídates
- Uso de assembleias populares para revogar decisões do Senado
- Lealdade das legiões profissionais ao comandante e não ao Estado
O que veio depois
- Primeira ocupação de Roma por um exército romano
- Execução e proscrição de adversários políticos
- Normalização do uso das legiões em conflitos internos
Importância histórica
Marco da desintegração da ordem republicana: a força militar passa a ser o árbitro final da política interna.
O que dizem as fontes
As narrativas mais completas são as de Apiano e Plutarco, esta na Vida de Sula, com complemento em Veleio e Lívio. Apiano é favorável a uma leitura ligada à busca de comando e espólio; fontes tardias tendem a atribuir à ambição pessoal o que também envolvia conflito sobre a distribuição dos novos cidadãos. Discute-se a legalidade da lei que tirou o comando de Sula, o papel de Sulpício e a escala dos combates. Os números das tropas são aproximações. É relativamente seguro que a entrada armada em Roma foi sentida como ruptura, pois quase todos os oficiais se recusaram a acompanhá-lo.
Figuras envolvidas
- Lúcio Cornélio Sula — o primeiro a marchar sobre Roma
- Caio Mário — o reformador do exército
- Públio Sulpício Rufo
Fontes consultadas
- Plutarco, Vidas Paralelas: Sula Fonte antiga
- Apiano, Guerras Civis, livro I Fonte antiga
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