Sobre a data: A tradição associa a dedicação ao primeiro ano da República. A construção, porém, é atribuída aos reis etruscos, e as fundações conservadas no Capitólio indicam um templo de grandes dimensões erguido no fim do período monárquico.
Contexto histórico
As fundações em blocos de tufo ainda visíveis indicam um edifício com cerca de sessenta metros de lado, comparável aos maiores santuários gregos da época. O templo abrigava os rituais de posse dos cônsules, o destino final das procissões triunfais e os arquivos de tratados. A obra demandou recursos e mão de obra em escala que confirma o poder acumulado pela monarquia em seu período final, mesmo que a data exata da consagração permaneça vinculada à narrativa tradicional da fundação da República.
Como se desenrolou
A tradição conta que Tarquínio Prisco prometeu o templo durante a guerra contra os sabinos e que começou a preparar a plataforma sobre o monte Capitólio, removendo santuários anteriores. Para isso foi preciso consultar os deuses sobre a transferência dos cultos menores: todos concordaram em ceder o lugar, exceto Término e Juventas, cujos altares permaneceram, e isso foi lido como sinal de que as fronteiras e a juventude de Roma seriam estáveis. Tarquínio, o Soberbo, teria concluído a obra e contratado artesãos etruscos de Veios, sendo atribuída a Vulca a quadriga de terracota que ornava o topo do frontão.
Outro episódio narrado por Lívio e outros autores é o da cabeça humana encontrada nas escavações da fundação, o que foi interpretado como presságio de que ali seria o centro do poder, ou caput, do mundo. O prodígio explicaria o nome Capitólio. As fundações conservadas, em blocos de tufo, desenham uma plataforma de cerca de 55 por 60 metros, com planta de três celas paralelas, uma para Júpiter ao centro, e as de Juno e Minerva ao lado, e um pórtico profundo. Era um modelo de templo etrusco, com colunas largamente espaçadas e vigas de madeira, que exigiu enorme esforço de construção, e foi muito maior que os templos gregos contemporâneos em Roma.
Segundo a tradição, a dedicação ocorreu em 13 de setembro do primeiro ano da República, sob o cônsul Marco Horácio Pulvilo, após uma disputa com o outro cônsul. A data dos Idos de setembro ficou associada aos Jogos Romanos e à cerimônia em que um magistrado fixava um prego na parede do templo, usada como marca de contagem dos anos. Os cônsules sacrificavam ali ao tomarem posse, e o Senado reunia-se no lugar em momentos solenes. O templo foi destruído por incêndio em 83 a.C. e reconstruído por Sula e depois Catulo, mantendo o plano antigo, ainda que com colunas de mármore.
O que levou a isso
- Acúmulo de recursos e prestígio pela monarquia no século VI a.C.
- Influência de modelos arquitetônicos etruscos e gregos no Lácio
- Necessidade de um centro cultual único para a comunidade em expansão
O que veio depois
- Consolidação da tríade capitolina como culto oficial do Estado
- Definição do Capitólio como destino do triunfo e sede simbólica do poder
- Modelo arquitetônico replicado em colônias romanas por toda a Itália
Importância histórica
Fixa o núcleo religioso do Estado romano, referência de legitimidade política que sobreviveria à monarquia, à República e ao início do Império.
O que dizem as fontes
O templo é um dos raros casos em que um dado material permite testar a tradição. As fundações grandiosas confirmam uma obra de escala excepcional, compatível com um poder centralizado, e a decoração em terracota se encaixa no estilo da Etrúria arcaica. Contudo, a escavação não resolve a data exata: há quem a situe no fim do século VI a.C., e a coincidência com 509 a.C. pode ter sido artificial, pois fazia da dedicação o primeiro ato da nova República. Cornell lembra que a lista dos magistrados que supostamente fixaram o prego, de que Lívio dependia, pode ter sido reconstituída mais tarde. Assim, a existência do templo é certa, e a data precisa, discutível.
Figuras envolvidas
- Tarquínio, o Soberbo — o último rei segundo a tradição
Fontes consultadas
- Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro I Fonte antiga
- Coleção de arte e arquitetura romana The Metropolitan Museum of Art
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