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DigitalTitleTrace Cronologia do mundo romano

data tradicional

Reinado de Numa Pompílio e a organização do culto público

A tradição atribui ao segundo rei a criação dos principais colégios sacerdotais, do calendário religioso e dos rituais que estruturariam a vida pública romana por séculos.

  • Religião e crenças
  • Monarquia
  • Roma
  • Século VIII a.C.
Acontecimento 3 de 144 2 % do percurso

Sobre a data: Os anos derivam da lista tradicional dos sete reis, cuja duração média é considerada implausível pela crítica histórica: sete reinados cobrindo dois séculos e meio exigiriam governos excepcionalmente longos.

Contexto histórico

Tito Lívio e Plutarco apresentam Numa como o oposto complementar de Rômulo: onde o primeiro rei teria criado o exército e as fronteiras, o segundo teria criado a ordem sagrada. A ele se atribuem as virgens vestais, os flâmines, os pontífices, o culto de Jano e a divisão do ano em meses. É provável que instituições religiosas realmente arcaicas tenham sido reunidas sob um único nome fundador, prática comum nas tradições antigas. O que se pode afirmar com segurança é que essas estruturas sacerdotais já operavam em Roma no período republicano e conservavam formas linguísticas muito antigas.

Como se desenrolou

Segundo Lívio, após a morte de Rômulo a cidade passou por um interregno em que os senadores exerceram o poder em turnos de cinco dias, até que o povo aceitou eleger um rei escolhido pelo Senado. A escolha recaiu sobre Numa Pompílio, sabino de Cures, conhecido pela piedade e pela justiça, que teria hesitado em aceitar. Antes de assumir, Numa exigiu a confirmação dos deuses: um áugure o conduziu ao Capitólio, e o sinal favorável foi tomado como aprovação divina. O episódio é a primeira descrição de uma investidura pública acompanhada de auspícios, procedimento que depois seria padrão em Roma.

A tradição atribui a Numa uma série de criações concretas. Teria instituído o colégio dos pontífices, chefiado pelo pontífice máximo, que guardava as regras do culto e do calendário; os áugures, que interpretavam sinais do céu; os flâmines, sacerdotes ligados a deuses específicos, como Júpiter, Marte e Quirino; e as vestais, encarregadas de manter aceso o fogo do templo de Vesta. Também se lhe atribui o culto à Fides, a fundação do templo de Jano, cujas portas ficavam abertas em tempo de guerra e fechadas em tempo de paz, e a introdução dos meses de janeiro e fevereiro no calendário. A ninfa Egéria seria sua conselheira divina.

Plutarco, que compara Numa ao legislador espartano Licurgo, enfatiza o caráter pacífico do reinado, que teria durado cerca de quarenta anos sem guerras. Há na tradição outra peculiaridade, a de que Numa teria deixado escritos religiosos, supostamente encontrados em um túmulo no Janículo em 181 a.C. e queimados por ordem do Senado por conterem doutrinas perigosas para a religião estabelecida. Lívio e outros autores relatam o caso, que mostra como a figura do rei serviu, séculos depois, de argumento em disputas sobre o que era ritual legítimo. As regras religiosas arcaicas, chamadas de leges regiae, também lhe seriam atribuídas.

O que levou a isso

  • Necessidade de regular o calendário agrícola e as festas comunitárias
  • Integração de práticas rituais latinas e sabinas em um sistema comum
  • Tendência da tradição antiga a atribuir instituições coletivas a fundadores individuais

O que veio depois

  • Consolidação de um calendário religioso que organizava o ano cívico
  • Criação de sacerdócios públicos ocupados por membros da elite, ligando religião e poder
  • Referência permanente para reformas religiosas posteriores, inclusive as de Augusto

Importância histórica

Explica por que a religião pública romana era inseparável da política: os mesmos homens que comandavam exércitos presidiam sacrifícios, e o culto era assunto de Estado.

O que dizem as fontes

Numa é, quase certamente, uma figura de construção tardia, e muitos estudiosos o veem como símbolo da religião romana, não como personagem biográfico. Cornell observa que a tradição dividiu as funções primordiais entre os fundadores: Rômulo, a guerra e a política; Numa, o culto. A tese de que um único rei teria criado todos os sacerdócios não se sustenta, mas a antiguidade de várias instituições é provada por termos arcaicos conservados nos rituais e por elementos do calendário, como as festas fixas que aparecem em inscrições posteriores. A cronologia dos reinados, por sua vez, é um esquema regular e dificilmente reflete reinados históricos reais.

Figuras envolvidas

Fontes consultadas

  1. Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro I Fonte antiga
  2. Plutarco, Vidas Paralelas: Numa Fonte antiga
  3. Mary Beard, John North e Simon Price, Religions of Rome Cambridge University Press

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