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DigitalTitleTrace Cronologia do mundo romano

data tradicional

Fundação tradicional de Roma

A tradição romana fixou em 753 a.C. o ato de fundação da cidade por Rômulo, com o traçado ritual de um sulco no Palatino. O relato é um marco identitário da cultura romana, e não um registro histórico verificável.

  • Política e governo
  • Monarquia
  • Palatino, Roma
  • Século VIII a.C.
Acontecimento 2 de 144 1 % do percurso

Sobre a data: A data de 21 de abril de 753 a.C. foi calculada por eruditos romanos do século I a.C., em especial Marco Terêncio Varrão, mais de setecentos anos depois do episódio narrado. Não existe documento contemporâneo que a confirme, e as escavações mostram ocupação contínua bem anterior.

Contexto histórico

O conjunto de narrativas sobre Rômulo e Remo, a loba e a disputa entre os irmãos foi fixado por escrito séculos depois, sobretudo em Tito Lívio e em Dionísio de Halicarnasso, ambos escrevendo na época de Augusto. Esses autores já trabalhavam com versões conflitantes e as harmonizaram para dar à cidade uma origem coerente e prestigiosa, conectada também à tradição troiana de Eneias. Para a historiografia atual, o valor do relato está no que ele revela sobre a autoimagem romana: a cidade se pensava como fundada por um ato deliberado, com fronteiras sagradas e instituições estabelecidas desde o primeiro dia.

Como se desenrolou

Na versão que se tornou canônica, Rômulo e Remo, filhos de Réia Sílvia e do deus Marte, descendentes dos reis de Alba Longa, teriam sido lançados ao Tibre ainda bebês e recolhidos por uma loba, depois criados pelo pastor Fáustulo. Adultos, restituíram o trono ao avô Numitor e decidiram fundar uma cidade no lugar da criação. Para decidir quem a governaria, consultaram os augúrios: Remo teria visto seis abutres, Rômulo, doze, e cada qual reivindicou a vitória. Lívio registra ainda uma versão em que Remo saltou sobre o muro nascente e foi morto, e outra em que a morte se deu em uma briga entre seguidores.

O ato de fundação, segundo os autores antigos, seguiu um rito de origem etrusca. Rômulo teria atrelado um boi e uma vaca a um arado de ponta de bronze e traçado um sulco ao redor do Palatino, levantando o arado nos pontos de passagem para marcar as portas. O sulco definia o pomério, o limite sagrado dentro do qual valiam os auspícios urbanos. Em seguida, a tradição fala da criação do asilo, um refúgio para fugitivos que garantiria população, e do episódio do rapto das sabinas, que resolveria a falta de mulheres. Daí viria a guerra com os sabinos de Tito Tácio e o governo conjunto que precedeu a morte de Rômulo.

A fixação da data em 753 a.C. foi obra de eruditos. Varrão, no século I a.C., recorreu a cálculos astrológicos de seu amigo Tarúcio para estabelecer o dia 21 de abril, que coincidia com a festa pastoril das Parílias. Outras cronologias circularam: Fábio Pictor, por exemplo, situava a fundação em data diferente, e autores gregos como Timeu propunham datas ligadas à fundação de Cartago. Essa multiplicidade mostra que a data de 753 não foi herdada de registros, mas escolhida entre alternativas. O próprio Rômulo é tido como filho de Eneias, o troiano, apenas por uma genealogia artificial, que ligou o mito de origem latino ao mundo grego.

O que levou a isso

  • Necessidade romana de uma origem única e datável para a comunidade
  • Circulação de tradições orais latinas e etruscas sobre heróis fundadores
  • Trabalho de cronologistas do século I a.C. que converteram listas de reis em datas absolutas

O que veio depois

  • Adoção da contagem de anos a partir da fundação da cidade em textos oficiais e literários
  • Consolidação do pomério, o limite religioso da cidade, como conceito jurídico duradouro
  • Uso político do mito fundador em programas de governo, especialmente sob Augusto

Importância histórica

Estrutura a memória que os próprios romanos tinham de si e continua a organizar a cronologia convencional da história de Roma, desde que tratada como tradição e não como fato comprovado.

O que dizem as fontes

A historiografia moderna distingue com clareza o mito da evidência. Plutarco, Lívio e Dionísio de Halicarnasso recolheram tradições já retrabalhadas por analistas anteriores, e nenhum deles dispunha de registros contemporâneos. Tim Cornell e Mary Beard sublinham que a lenda diz mais sobre as preocupações romanas, como a violência política, a mistura de povos e a legitimidade do poder, do que sobre eventos reais. A arqueologia mostra ocupação anterior a 753 e crescimento gradual, sem corte nítido que corresponda a um ato fundador. Uma figura real chamada Rômulo não pode ser confirmada nem negada, e o nome pode ter sido derivado do próprio nome da cidade.

Figuras envolvidas

  • Rômulo — o fundador da tradição romana
  • Remo

Fontes consultadas

  1. Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro I Fonte antiga
  2. Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas, livro I Fonte antiga
  3. Mary Beard, SPQR: A History of Ancient Rome Profile Books

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