Contexto histórico
Cômodo foi o primeiro imperador em quase um século a herdar o poder por nascimento. Seu governo abandonou a política de fronteira do pai, transferiu a administração cotidiana a favoritos e cultivou uma imagem pessoal extravagante, incluindo participação em espetáculos na arena. Terminou assassinado por um grupo próximo, deixando o império sem sucessor claro e abrindo nova guerra civil.
Como se desenrolou
Cômodo, nascido em 161, fora associado ao trono em 177 e ao consulado muito jovem. Com a morte do pai, em 17 de março de 180, aos dezoito anos, tornou-se único imperador, no acampamento do Danúbio. Em poucos meses fez a paz com marcomanos e quados, em termos que, segundo Dião Cássio e Herodiano, desagradaram os conselheiros do pai, e voltou a Roma em outubro, onde celebrou um triunfo. Em 182, sua irmã Lucila, com o genro e outros senadores, participou de uma conspiração malsucedida, e o episódio endureceu o governo. Lucila foi exilada e morta, e seguiram-se processos contra senadores acusados de traição.
A administração ficou nas mãos de favoritos. O prefeito do pretório Perene dominou a corte até 185, quando soldados da Britânia foram a Roma e exigiram sua morte, com Cômodo cedendo. Veio então Cleandro, liberto de origem frígia, que vendia cargos e acabou promovido a prefeito do pretório. Em 190, uma escassez de grãos e um motim popular levaram o imperador a sacrificá-lo. Em 191, um incêndio destruiu partes do centro de Roma, incluindo o Templo da Paz. O imperador passou a se apresentar como Hércules Romano, usando pele de leão e clava, e a cidade foi rebatizada Colônia Lúcia Aélia Comodiana, com alterações em nomes de meses.
Dião Cássio, que presenciou os eventos como senador, conta que Cômodo lutava na arena como gladiador, embora contra adversários armados de espadas de madeira, e matava animais, recebendo um milhão de sestércios por apresentação, o que ele cobrava do erário. Em dezembro de 192, planejando assumir o consulado de 193 vestido como gladiador, foi alvo de um complô entre sua amante Márcia, o camareiro Eclecto e o prefeito do pretório Leto. Segundo as fontes, Márcia tentou envenená-lo, mas ele vomitou o veneno, e um atleta, Narciso, o estrangulou no banho em 31 de dezembro. O Senado condenou a memória do imperador e aclamou Pertinax, prefeito de Roma.
O que levou a isso
- Existência de um herdeiro biológico, ao contrário dos governos anteriores
- Desgaste financeiro e militar acumulado pelas guerras do Danúbio
- Concentração de decisões nas mãos de favoritos da corte
O que veio depois
- Fim da sucessão por adoção e retorno do critério dinástico
- Assassinato do imperador e nova crise sucessória
- Deterioração da relação entre o poder imperial e a elite senatorial
Importância histórica
Encerra o período que a tradição historiográfica chamou de auge do império e abre a instabilidade que desembocaria na crise do século III.
O que dizem as fontes
Dião Cássio e Herodiano compõem imagem muito negativa, enfatizando excesso, crueldade e capricho, e a Historia Augusta aumenta o tom. Por serem relatos senatoriais, refletem o desagrado da elite diante de um príncipe que governava por intermédio de libertos e se exibia na arena. Alguns historiadores modernos, como Olivier Hekster, mostram em Commodus que sua autorrepresentação religiosa e dinástica era coerente com tendências do período, e que a hostilidade das fontes é parcialmente construída. A paz do Danúbio, criticada na Antiguidade, é hoje discutida como solução realista. Os números de mortos em processos são desconhecidos.
Figuras envolvidas
- Marco Aurélio — o imperador filósofo
- Cômodo — o herdeiro que encerrou o século II
Fontes consultadas
- Dião Cássio, História Romana, livro LXXIII Fonte antiga
- Herodiano, História do Império Romano após Marco Aurélio Fonte antiga
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