Contexto histórico
O movimento não foi separatista no sentido cultural: seus governantes se apresentavam como imperadores romanos e reproduziam as instituições de Roma. A motivação era prática, já que o poder central não conseguia defender a fronteira do Reno. Durante quatorze anos, essa administração paralela garantiu segurança e continuidade administrativa no ocidente, até ser reintegrada por Aureliano. É um exemplo claro de como a crise do século III produziu soluções regionais de governo.
Como se desenrolou
Em 260, quando Valeriano caiu prisioneiro, Galieno atuava no Danúbio e deixara seu filho Salonino na Gália, sob a proteção do prefeito Silvano. Marco Cassiano Latiniano Póstumo, comandante das tropas do Reno, derrotou bandos de germanos que voltavam de incursões e, segundo as fontes, desentendeu-se com Silvano sobre a divisão do butim. Foi aclamado pelos soldados e cercou Colônia, onde Salonino e Silvano foram mortos. Póstumo estabeleceu sua corte em Colônia, depois em Tréveris. Galieno tentou reagir, mas seus ataques fracassaram por volta de 265 e o território passou a ser governado de fato por Póstumo. Nunca avançou sobre a Itália, o que sugere um projeto de defesa, não de conquista.
O regime imitava o aparato romano. Póstumo recebeu o título de imperador, assumiu o consulado e emitiu moedas de boa qualidade, nas quais invocava Hércules, divindade local, e proclamava a restauração das Gálias. Em escritos posteriores, como a Historia Augusta, fala-se de um senado e de uma guarda pretoriana próprios, mas essas informações têm menor segurança. A Britânia e a maior parte da Hispânia aderiram, ao passo que a Récia, a Itália e as províncias do Danúbio permaneceram com Galieno. Em 269, Póstumo foi morto por soldados, ao que se diz por ter recusado permitir o saque de Mogúncia, na repressão ao usurpador Laeliano.
Seguiram-se Mário, rapidamente eliminado, e Vitorino, assassinado em 271 por motivo pessoal. Então foi aclamado Tétrico, senador e governador da Aquitânia, apoiado por Vitória, mãe de Vitorino, segundo as fontes. A autoridade enfraquecera: a Hispânia parece ter voltado a Roma pouco depois de 268, e os francos e alamanos pressionavam. Em 274, Aureliano marchou contra ele e a batalha travou-se perto de Châlons-en-Champagne. Tétrico, segundo a tradição, entregou-se às tropas inimigas, pois temia os próprios soldados. Foi poupado e, conforme a Historia Augusta, recebeu mais tarde um cargo na Itália, relato de confiabilidade incerta. A Gália voltou ao governo central.
O que levou a isso
- Incapacidade do governo central de defender a fronteira do Reno
- Captura do imperador no Oriente e vazio de autoridade
- Interesse das elites e das tropas ocidentais em segurança imediata
O que veio depois
- Administração autônoma no ocidente durante quatorze anos
- Manutenção da defesa da fronteira renana durante a crise
- Reintegração pacífica ao império sob Aureliano
Importância histórica
Mostra que a fragmentação do século III foi antes uma resposta funcional à ausência de proteção do que uma rejeição à identidade romana.
O que dizem as fontes
O Império das Gálias é conhecido sobretudo por duas fontes: as moedas, abundantes e bem estudadas, e relatos breves em Zósimo, Aurélio Víctor e na Historia Augusta, esta última pouco confiável nos detalhes. A numismática mostra a existência de uma emissão regular, a imagem do soberano e a ênfase em temas romanos tradicionais. Já a existência de um senado, de magistrados de nível romano e de uma guarda própria depende de testemunhos fracos. O debate historiográfico gira em torno da natureza do projeto: se foi uma secessão, um expediente temporário ou uma tentativa de se apresentar como Roma legítima do Ocidente. A cronologia dos sucessores de Póstumo e a adesão da Hispânia, por exemplo, permanecem incertas.
Figuras envolvidas
- Póstumo
- Tétrico I
Fontes consultadas
- Zósimo, História Nova, livro I Fonte antiga
- Moedas do Império das Gálias The British Museum
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