Sobre a data: As datas de início e fim variam conforme a região e a fonte; houve surtos recorrentes até o início do século III. A identificação da doença é provável, não certa, com a varíola entre as hipóteses mais aceitas.
Contexto histórico
O médico Galeno descreveu sintomas compatíveis com varíola, e os relatos indicam mortalidade alta em cidades e acampamentos militares. As perdas humanas afetaram o recrutamento, a produção agrícola e a arrecadação, justamente quando o império enfrentava pressão simultânea nas fronteiras do Danúbio. Estimativas modernas de mortalidade variam bastante, mas há consenso de que o episódio marcou o fim do período de crescimento demográfico e econômico do Alto Império.
Como se desenrolou
A doença é associada ao retorno das tropas de Lúcio Vero da campanha parta, em 165 e 166. A Historia Augusta atribui o contágio ao saque de Selêucia, onde um soldado teria aberto um cofre num templo de Apolo e liberado um vapor mortífero, versão claramente lendária. A epidemia chegou a Roma em 166, e Galeno, médico grego que vivia na cidade, deixou-a e voltou a Pérgamo. Em 168, o imperador Marco Aurélio o chamou a Aquileia, onde a doença atingia violentamente o exército. Lúcio Vero morreu em 169, possivelmente em decorrência de um surto. Em Esmirna, o orador Élio Aristides também registrou a presença da peste em seus Discursos Sagrados.
Galeno descreve febre, diarreia, inflamação da garganta e uma erupção cutânea com pústulas, às vezes negras, que seca por volta do nono dia. Essas indicações, vagas, levam muitos a falar de varíola, embora o sarampo tenha sido sugerido. A mortalidade parece ter sido maior em núcleos densos e em acampamentos. Cássio Dio fala de dois mil mortos por dia em Roma em um surto posterior, por volta de 189. Marco Aurélio, segundo a Historia Augusta, financiou ritos de purificação e funerais, e teria chegado a vender objetos do palácio para pagar custos de guerra, em um leilão no Fórum de Trajano, relato de fonte pouco confiável.
Os efeitos podem ser acompanhados indiretamente. Papiros egípcios, como registros de impostos em aldeias do Fayum, mostram quedas de população e abandono de terras, e a cunhagem de moedas com teor reduzido de prata sugere pressão fiscal. O exército recorreu a recrutas escravos e gladiadores e criou duas novas legiões, a II e a III Itálica, em 165. A tradição cristã, nas palavras de Orósio e Eusébio, fala de uma mortalidade enorme. Cada região teve ritmo próprio, e algumas, como a Gália, parecem ter sido menos atingidas. Segundo a hipótese de Kyle Harper, houve um segundo surto por volta de 251, a peste de Cipriano.
O que levou a isso
- Circulação de tropas entre o Oriente e as províncias europeias
- Alta densidade urbana e intensa mobilidade no interior do império
- Ausência de qualquer recurso médico eficaz contra a doença
O que veio depois
- Queda populacional e escassez de recrutas para o exército
- Pressão fiscal e desorganização de atividades produtivas
- Agravamento das dificuldades militares nas fronteiras do Danúbio
Importância histórica
Primeira grande pandemia documentada do mundo romano e fator estrutural na perda de fôlego do império a partir do fim do século II.
O que dizem as fontes
Nossas informações vêm de Galeno, que descreve sintomas dispersos, de Dião Cássio e da Historia Augusta, além de papiros e inscrições. O diagnóstico de varíola é plausível, mas não comprovado, e a análise de DNA antigo ainda não resolveu a questão. As estimativas de mortalidade variam de cerca de 2 a 3 por cento até um quarto ou um terço da população: Richard Duncan-Jones e Kyle Harper defendem números elevados, de milhões de mortos, enquanto Christer Bruun duvida que a epidemia tenha produzido o colapso demográfico e econômico que se lhe atribui. A evidência fragmentária impede conclusões firmes.
Figuras envolvidas
- Marco Aurélio — o imperador filósofo
- Galeno
Fontes consultadas
- Galeno, Tratados médicos Fonte antiga
- Dião Cássio, História Romana, livro LXXII Fonte antiga
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