Sobre a data: As balizas são convenções historiográficas. Alguns pesquisadores questionam a ideia de uma crise única e generalizada, apontando que certas regiões prosperaram no período.
Contexto histórico
No espaço de cinquenta anos, dezenas de homens foram proclamados imperadores e quase todos morreram violentamente. Ao mesmo tempo, godos e outros povos cruzavam o Danúbio, o império sassânida atacava no Oriente e o teor de prata da moeda corrente despencava, provocando inflação persistente. Regiões inteiras se separaram sob autoridades locais que garantiam a defesa que o poder central já não oferecia. A recuperação, iniciada nas décadas de 260 e 270, exigiria reformar profundamente o exército, a moeda e a administração.
Como se desenrolou
O ponto de partida convencional é o assassinato de Severo Alexandre por soldados, em 235, perto de Mogúncia, durante uma campanha contra os germanos. Sucedeu-lhe Maximino, o Trácio, oficial de carreira equestre que governou sobretudo nos acampamentos do Reno e do Danúbio e tornou-se odiado pela pressão fiscal. Em 238, a revolta de proprietários na África desencadeou o chamado ano dos seis imperadores, no qual figuraram os dois Gordianos, Pupieno, Balbino e, por fim, o jovem Gordiano III, enquanto o próprio Maximino era morto por suas tropas diante de Aquileia. Fixou-se então um padrão: generais aclamados por soldados em regiões distantes, a quem o Senado só podia aceitar ou combater.
A partir de meados do século, as frentes se multiplicaram. Em 251, Décio morreu em combate contra os godos em Abrito, na atual Bulgária, fato frequentemente apontado como a primeira morte de um imperador em batalha contra inimigo externo. Desde cerca de 249, uma epidemia, conhecida como peste de Cipriano por causa do bispo de Cartago que a descreveu, assolou várias regiões por anos. No Oriente, os sassânidas, que haviam substituído a dinastia parta por volta de 224, tomaram cidades como Antioquia. O antoniniano, moeda de prata criada em 215, perdeu quase todo o metal nobre e passou a circular como bronze apenas banhado, o que minou a confiança nos pagamentos do Estado.
A recuperação não veio de uma única medida. Galieno, que governou sozinho de 260 a 268, reorganizou uma cavalaria móvel de reserva e, segundo Aurélio Víctor, afastou senadores de comandos militares, favorecendo oficiais de carreira, muitos de origem ilírica. Esses mesmos oficiais, entre eles Cláudio II, vencedor dos godos em Naísso por volta de 268 ou 269, e Aureliano, forneceram os imperadores das décadas seguintes. A moeda só começou a ser reformada por Aureliano, por volta de 274, e o quadro institucional definitivo viria com Diocleciano. A crise funcionou, assim, como laboratório involuntário: soluções improvisadas por generais e administradores de emergência foram depois sistematizadas em regras permanentes.
O que levou a isso
- Ausência de regra sucessória e dependência do poder em relação às tropas
- Pressão simultânea de povos no Danúbio, no Reno e do império sassânida no Oriente
- Desvalorização monetária progressiva e queda da arrecadação
O que veio depois
- Fragmentação temporária do império em blocos regionais autônomos
- Militarização da administração e crescimento do peso fiscal
- Reformas profundas do exército, da moeda e do governo a partir de 284
Importância histórica
Período que quase encerrou a história romana três séculos antes de 476 e que remodelou por completo o funcionamento do Estado.
O que dizem as fontes
As fontes narrativas do período são pobres e tardias. Herodiano termina em 238, a Historia Augusta mistura informação útil com invenção deliberada, e Zósimo escreve no século VI, apoiando-se em autores perdidos como Dexipo. Por isso os historiadores recorrem a moedas, inscrições e papiros, que mostram a desvalorização monetária e os preços em alta no Egito. O debate está em saber se houve uma crise única e generalizada: David Potter, em The Roman Empire at Bay, enfatiza a gravidade do colapso político e militar, mas outros pesquisadores observam que regiões inteiras, sobretudo na África e em partes do Oriente, mantiveram prosperidade ou até cresceram. O termo, portanto, descreve melhor a instabilidade política do que um declínio econômico uniforme.
Figuras envolvidas
- Décio — o imperador do édito de sacrifício
- Valeriano — o imperador capturado pelos persas
- Galieno — o governante da fragmentação
- Aureliano — o restaurador da unidade
Fontes consultadas
- Zósimo, História Nova, livro I Fonte antiga
- David S. Potter, The Roman Empire at Bay, AD 180–395 Routledge
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