Ir para o conteúdo
DigitalTitleTrace Cronologia do mundo romano

Peste de Justiniano

Uma epidemia de peste bubônica chegou pelos portos e devastou o império durante anos, com surtos recorrentes por dois séculos.

  • Sociedade e conflitos internos
  • Oriente e legado
  • Mediterrâneo e Oriente Próximo
  • Século VI d.C.
Acontecimento 136 de 144 94 % do percurso

Sobre a data: Análises de material genético recuperado de sepultamentos do período identificaram a bactéria causadora da peste bubônica, confirmando as descrições das fontes escritas. As estimativas de mortalidade variam muito.

Contexto histórico

Procópio descreve a chegada da doença ao Egito e sua propagação por rotas comerciais até Constantinopla, onde as mortes diárias teriam sido incontáveis. As consequências foram estruturais: escassez de mão de obra, queda da arrecadação, dificuldade de recrutamento e interrupção de obras públicas, tudo isso durante as campanhas de reconquista. Muitos historiadores consideram a epidemia um fator central no enfraquecimento do Estado às vésperas das grandes transformações do século VII.

Como se desenrolou

Segundo Procópio, a epidemia teve origem no Egito, em Pelúsio, em 541, e seguiu pelas rotas marítimas até Alexandria e a Palestina. Chegou a Constantinopla na primavera de 542, trazida provavelmente nos navios que levavam grãos da província egípcia para alimentar a capital. O historiador, testemunha ocular, descreve febre, tumores nas virilhas e axilas, delírio e morte em poucos dias, e afirma que no auge o número de mortos diários passou de cinco mil, chegando a dez mil. Esses números não são confiáveis, mas indicam o tamanho do trauma. O próprio Justiniano adoeceu e se recuperou, enquanto as sepulturas se esgotaram e as autoridades precisaram dispor dos corpos de modo improvisado.

A doença seguiu para o Ocidente. Fontes registram sua presença na Itália, na Gália e em territórios do Oriente, além da Pérsia, onde afetou o império sassânida. João de Éfeso, que viveu a epidemia, deixou testemunho sobre o impacto no campo da Síria e da Mesopotâmia. Surtos voltaram a intervalos de uma ou duas décadas durante o século VI e seguintes, com o último registro amplamente aceito em Constantinopla por volta de 747 e 748. O impacto foi tratado por leis de Justiniano sobre salários e abastecimento, e a recuperação demográfica foi lenta porque as recorrências atingiam justamente as crianças nascidas nos intervalos, mantendo a população jovem sob pressão.

A identificação da doença avançou com a paleogenética. Pesquisadores extraíram DNA de Yersinia pestis de dentes de sepultados em cemitérios do século VI, como o de Aschheim, perto de Munique, e de outros sítios europeus, e demonstraram que se tratava de uma linhagem relacionada à da Peste Negra, mas distinta dela. A transmissão provável envolvia pulgas de roedores, que viajavam em cargas de grãos. As cidades portuárias e os centros de redistribuição, como Constantinopla, eram pontos de grande risco. O quadro explica por que o foco inicial ocorreu em áreas de intenso comércio e por que a mortalidade variou muito entre regiões, dependendo de densidade, clima e fluxos de mercadorias.

O que levou a isso

  • Circulação da bactéria por rotas comerciais marítimas do Mediterrâneo
  • Alta densidade urbana e intensa mobilidade portuária
  • Ausência de qualquer meio eficaz de contenção epidêmica

O que veio depois

  • Mortalidade elevada em cidades e no campo, com queda demográfica prolongada
  • Redução da arrecadação e da capacidade de recrutamento militar
  • Surtos recorrentes por cerca de dois séculos

Importância histórica

Uma das maiores catástrofes demográficas da Antiguidade tardia e fator estrutural nas transformações do mundo mediterrânico.

O que dizem as fontes

Procópio, João de Éfeso e Evágrio descrevem a epidemia, mas quase sempre em tom retórico, com números que não devem ser tomados ao pé da letra. A paleogenética confirmou a bactéria, o que encerrou a dúvida sobre a natureza da doença. O ponto em aberto é o efeito demográfico e econômico. Kyle Harper defendeu, em The Fate of Rome, que a peste foi uma catástrofe de grande escala, enquanto Lee Mordechai e colegas, em artigo de 2019, argumentaram que faltam evidências quantitativas, em papiros, moedas e inscrições, de um colapso generalizado. A discussão segue viva, e as estimativas de mortalidade vão de uma fração modesta a até metade da população, sem consenso.

Figuras envolvidas

  • Justiniano I — o codificador do direito romano
  • Procópio de Cesareia

Fontes consultadas

  1. Procópio de Cesareia, Guerra Persa, livro II Fonte antiga
  2. Estudos de paleogenética sobre a primeira pandemia de peste Max Planck Institute for the Science of Human History

Acontecimentos relacionados