Contexto histórico
A Itália, arrasada por vinte anos de guerra e por epidemia, tinha pouca capacidade de resistência. O governo de Constantinopla conseguiu manter apenas faixas de território, entre elas Ravena, Roma e o extremo sul. A península ficou dividida entre áreas lombardas e áreas imperiais, situação que se prolongaria por séculos e teria consequências profundas para a história política italiana e para o crescimento da autoridade temporal do bispo de Roma.
Como se desenrolou
Os lombardos viviam na Panônia, onde haviam se estabelecido com apoio bizantino depois de derrotar os gépidas, em aliança com os ávaros, em 567. Em abril de 568, segundo Paulo Diácono, o rei Alboíno partiu rumo à Itália, depois de entregar a Panônia aos ávaros, e cruzou os Alpes Júlios com um grupo heterogêneo que incluía saxões, gépidas e outros povos. A resistência foi mínima. Forum Iulii, atual Cividale, tornou-se o primeiro ducado, e as cidades do vale do Pó cederam ou foram tomadas uma a uma. Milão caiu em 569, e o arcebispo fugiu com parte do clero para Gênova. A defesa bizantina, dispersa em guarnições, concentrou-se em Ravena e nas cidades costeiras.
Pavia, a Ticinum romana, resistiu por cerca de três anos e se rendeu em 572, passando a ser a capital do reino. Nesse mesmo ano, Alboíno foi assassinado em Verona, em uma conspiração que a tradição atribui à esposa Rosamunda, filha do rei gépida morto, mas cujos detalhes têm tom de lenda. Seguiu-se um período sem rei, de cerca de dez anos, em que os duques, dispondo cada um de suas terras, saquearam e agiram de modo independente. Surgiram nesse intervalo os ducados de Spoleto e Benevento, que se tornariam centros autônomos no centro e no sul. A ausência de um poder central lombardo facilitou a sobrevivência de enclaves imperiais.
A reação bizantina foi tardia. Por volta de 584, o imperador Maurício instituiu na prática o Exarcado de Ravena, reunindo em um comandante o poder civil e militar na Itália imperial. A ameaça dos francos, a quem Bizâncio pagou para atacar os lombardos, levou os duques a restaurar a monarquia, e Autário foi elevado ao trono em 584. A pressão sobre Roma e sobre as terras vizinhas obrigou o papa Gregório Magno a se ocupar de abastecimento, pagamentos de tréguas e negociações diretas, atribuições que o Estado imperial já não cumpria. Aos poucos, os lombardos ocuparam também áreas de cultura católica e adotaram o catolicismo no século VII.
O que levou a isso
- Devastação da Itália pelas guerras de reconquista e pela epidemia
- Retirada de tropas imperiais para outras frentes
- Pressão de deslocamentos populacionais na Europa central
O que veio depois
- Fragmentação política duradoura da península itálica
- Redução do domínio imperial a Ravena, Roma e áreas costeiras
- Crescimento da autoridade política do bispo de Roma em um vazio de poder
Importância histórica
Encerra na prática o projeto de reunificação do Mediterrâneo e define a geografia política da Itália medieval.
O que dizem as fontes
Paulo Diácono escreveu a História dos Lombardos no fim do século VIII, mais de duzentos anos depois dos fatos, com base em tradições orais e em fontes perdidas, e suas narrativas de Alboíno e Rosamunda têm traços de saga. As cartas de Gregório Magno e as crônicas de Mário de Avenches e de outros autores contemporâneos corrigem parte do quadro. A arqueologia, sobretudo as necrópoles, mostra grupos com vestuário e armas próprios, mas o tamanho da migração é discutido: estimativas giram em torno de algumas dezenas de milhares de pessoas. A história de que o general Narses teria convidado os lombardos por vingança é tradição tardia, hoje considerada pouco crível.
Figuras envolvidas
- Alboíno
Fontes consultadas
- Paulo Diácono, História dos Lombardos Fonte antiga
- The Cambridge Ancient History, vol. XIV Cambridge University Press
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