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DigitalTitleTrace Cronologia do mundo romano

datação debatida

Primeiro tratado entre Roma e Cartago

Roma e Cartago firmaram um acordo delimitando áreas de navegação e comércio, o primeiro documento diplomático romano de que se tem notícia direta.

  • Economia e abastecimento
  • República
  • Roma e Cartago
  • Século VI a.C.
Acontecimento 9 de 144 6 % do percurso

Sobre a data: Políbio afirma ter lido o documento em bronze e o data do primeiro ano da República. Parte da crítica moderna propõe uma data algumas décadas posterior, mas a existência do acordo é amplamente aceita.

Contexto histórico

O texto, resumido por Políbio no livro III de suas Histórias, reconhecia a primazia cartaginesa em certas rotas do Mediterrâneo ocidental e o interesse romano sobre cidades do Lácio. Sua importância é dupla: mostra que Roma já era interlocutora relevante na região no fim do século VI a.C. e demonstra que o Mediterrâneo ocidental operava sob acordos comerciais formalizados. O mesmo tratado seria renovado e ampliado em pelo menos duas ocasiões antes do confronto direto entre as duas potências.

Como se desenrolou

Políbio relata no livro III que examinou pessoalmente o texto, gravado em bronze e guardado no templo de Júpiter Capitolino, junto ao tesouro dos edis. A língua latina arcaica do documento era, segundo ele, tão difícil que mesmo os mais instruídos só entendiam parte dela. Ele o data do consulado de Bruto e Horácio, os primeiros após a monarquia, vinte e oito anos antes da travessia de Xerxes para a Grécia. A passagem é rara, porque o historiador se apoia em um documento material, e não em uma tradição oral, para falar da Roma arcaica, e não em um relato literário posterior.

Os termos principais, como Políbio os resume, fixavam limites à navegação. Romanos e seus aliados não deveriam navegar além do chamado Belo Promontório, a norte de Cartago, salvo se empurrados por tempestade ou por inimigos. Quem fosse forçado a aportar só podia tomar o necessário para reparar o navio e fazer sacrifícios, devendo partir em cinco dias. Mercadores na Sicília cartaginesa ou na África negociariam em presença de um arauto ou de um escrivão da cidade, que garantia o pagamento. Roma e Cartago, assim, regulavam o acesso a mercados e não apenas o uso do mar.

A parte referente ao Lácio é a mais reveladora politicamente. Os cartagineses se comprometiam a não causar danos a cidades latinas sujeitas a Roma, como Árdea, Âncio, Laurento, Circeios e Terracina, e a não construir fortalezas em território latino. Isso sugere que, no fim do século VI a.C., Roma era vista como senhora de uma parte considerável da costa laciana, embora seja plausível que o texto reflita a pretensão romana de épocas posteriores. Políbio ainda registra renovações do acordo: um segundo tratado, que acrescentou Mastia e Tarseio como limites, e um terceiro, na época da guerra contra Pirro, que previa ajuda mútua.

O que levou a isso

  • Interesse cartaginês em proteger rotas comerciais no Mediterrâneo ocidental
  • Necessidade romana de reconhecimento externo após a mudança de regime
  • Prática difundida de acordos formais entre cidades do Mediterrâneo arcaico

O que veio depois

  • Delimitação de zonas de influência que durariam mais de dois séculos
  • Registro documental da posição de Roma como potência regional emergente
  • Base para renovações posteriores do acordo, até a ruptura do século III a.C.

Importância histórica

É a primeira evidência documental das relações externas de Roma e o ponto de partida da longa relação com Cartago que terminaria em três guerras.

O que dizem as fontes

O valor do tratado depende da confiança que se dê a Políbio, o único a transmitir o texto, e à data que ele propõe. Alguns estudiosos modernos, como se vê nas discussões resumidas por Goldsworthy e por Cornell, consideram o prestígio e o alcance territorial atribuídos a Roma em 509 a.C. exagerados para a época, e preferem datas mais baixas ou veem uma redação tardia do bronze. Políbio, porém, rebate explicitamente o historiador Fílino, que negava a existência de qualquer pacto. Não há achado arqueológico ou epigráfico que corresponda ao documento. O que se pode afirmar com segurança é que acordos desse tipo existiram entre Roma e Cartago antes das Guerras Púnicas.

Fontes consultadas

  1. Políbio, Histórias, livro III Fonte antiga
  2. Adrian Goldsworthy, The Punic Wars Cassell

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