Contexto histórico
Pressionados pela expansão dos hunos, grupos godos pediram autorização para atravessar o Danúbio e foram aceitos como refugiados. A administração local os explorou e os deixou sem abastecimento, o que provocou a revolta. Em Adrianópolis, o imperador atacou sem esperar reforços e sofreu uma derrota catastrófica. Amiano Marcelino a compara ao desastre de Canas. O episódio inaugura o problema central do século seguinte: grupos armados autônomos instalados dentro das fronteiras.
Como se desenrolou
Em 376, grupos godos, entre eles os tervíngios de Fritigerno, obtiveram do imperador Valente permissão para atravessar o Danúbio. Os oficiais encarregados do assentamento, entre eles Lupicino e Máximo, foram acusados de desviar suprimentos e de oferecer comida em troca de escravizados. A tensão explodiu em um banquete em Marcianópolis, em 377, após o qual os godos se rebelaram e derrotaram forças romanas. Os combates seguintes, como o de Ad Salices, foram sangrentos e sem resultado claro. Valente, ocupado com a fronteira persa, enviou reforços e comandantes, e o imperador ocidental Graciano também interveio, mas as operações não conseguiram conter os rebeldes na Trácia.
Valente deixou Antioquia em 378 e chegou a Constantinopla, onde enfrentou a hostilidade popular. Avançou então para a Trácia e acampou perto de Adrianópolis, atual Edirne. Informado de que os godos eram numericamente poucos, e sem esperar Graciano, decidiu atacar em 9 de agosto, sob calor intenso e depois de uma marcha longa. Fritigerno negociou enquanto aguardava a volta de sua cavalaria. Quando esta chegou, as tropas romanas, já desorganizadas, foram cercadas. Segundo Amiano Marcelino, cerca de dois terços do exército pereceram, entre eles muitos oficiais superiores. A cavalaria romana, além disso, foi dispersa nos primeiros choques, e a infantaria, apertada em espaço reduzido, não conseguiu manobrar nem usar as armas com eficácia.
Valente morreu na batalha, e sua sorte exata não é clara, pois a tradição fala de um corpo que nunca foi identificado. Após a derrota, os godos tentaram tomar Adrianópolis e outras cidades, mas não dispunham de máquinas de cerco e foram repelidos. Graciano nomeou Teodósio, general experiente, como imperador do Oriente em janeiro de 379. As operações seguintes foram lentas e dependeram de acordos. Em 382, um tratado instalou parte dos godos ao sul do Danúbio, com autonomia interna e obrigação de fornecer soldados, em termos cuja natureza exata é discutida.
O que levou a isso
- Pressão dos hunos sobre populações godas ao norte do Danúbio
- Má gestão do acolhimento dos refugiados pelas autoridades provinciais
- Decisão do imperador de atacar sem aguardar o exército ocidental
O que veio depois
- Destruição de grande parte do exército oriental e morte do imperador
- Acordo posterior que assentou os godos como grupo autônomo em território romano
- Precedente para novos assentamentos de povos armados dentro do império
Importância histórica
Marca o início do processo que levaria à formação de reinos autônomos dentro do território imperial ocidental.
O que dizem as fontes
Nossa fonte principal é Amiano Marcelino, contemporâneo, ex-oficial e autor de narrativa detalhada, que no entanto escreve com tom dramático e comparações literárias, como a de Canas. Outros autores, como Zósimo e historiadores eclesiásticos, acrescentam pouco ou refletem polêmicas religiosas, já que Valente era favorável à corrente ariana. Estimativas de efetivos variam muito, e os números dos exércitos de ambos os lados são incertos. A localização precisa do campo de batalha é debatida, pois a arqueologia não identificou o sítio. Os historiadores modernos divergem sobre se o desastre representou ruptura estratégica ou um episódio inserido em prática anterior de assentar povos armados.
Figuras envolvidas
- Valente — o imperador morto em Adrianópolis
- Fritigerno
Fontes consultadas
- Amiano Marcelino, Res Gestae, livro XXXI Fonte antiga
- Peter Heather, The Fall of the Roman Empire: A New History Oxford University Press
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