Contexto histórico
Roma havia crescido muito além do circuito de muralhas do século IV a.C. e vivia sem defesas há gerações, protegida pela distância das fronteiras. Incursões germânicas que chegaram ao norte da Itália mudaram esse cálculo. O novo circuito, com quase vinte quilômetros de extensão, incorporou edifícios existentes à estrutura para acelerar a obra. Grande parte permanece de pé e continua a delimitar visualmente o centro histórico da cidade.
Como se desenrolou
A decisão de murar Roma foi tomada quando Aureliano ainda estava no início de seu reinado. Em 270 e 271, os jutungos, povo germânico, haviam penetrado na Itália e vencido uma força romana perto de Placência antes de ser derrotados, o que causou pânico na capital. Seguindo a tradição, a obra começou em 271 e prosseguiu depois da morte de Aureliano, sendo concluída sob Probo, por volta de 282. O traçado percorria cerca de 19 quilômetros e abrangia uma área em torno de 1.300 hectares, maior do que a da antiga muralha serviana. Foi uma operação logística complexa em tempos de escassez, que exigiu mão de obra, materiais e coordenação de curto prazo.
A estrutura original era de concreto revestido de tijolo, com cerca de 3,5 metros de espessura e aproximadamente 6 metros de altura, e torres quadradas colocadas a intervalos regulares de cerca de 30 metros, chamados por alguns autores de cem pés romanos. Para economizar tempo, os engenheiros aproveitaram edifícios existentes: a pirâmide de Céstio, o Anfiteatro Castrense, parte dos Castra Praetoria e trechos de aquedutos tornaram-se partes da linha defensiva. Havia dezenas de portas, das quais cerca de catorze principais, como a Porta Ápia, depois chamada de São Sebastião. Sobre as muralhas colocaram-se máquinas de arremesso. As obras ocuparam ainda legionários e, ao que parece, corporações de ofício urbanas.
A muralha continuou a ser modificada. No início do século V, sob Honório, as portas foram reduzidas e a altura aumentou para cerca de dez ou doze metros, com uma galeria superior e torres reforçadas, em resposta à ameaça dos godos de Alarico. Mais tarde, papas e imperadores restauraram trechos. A Muralha serviu de defesa durante o cerco de 537 e 538 pelos godos de Vitige, e continuou em uso militar por séculos. Ainda estava de pé quando as tropas italianas abriram brecha na Porta Pia, em 1870, ao tomar Roma para o novo reino. Hoje, a maior parte do traçado subsiste, e muitos trechos podem ser visitados.
O que levou a isso
- Incursões de povos germânicos que alcançaram o norte da Itália
- Perda da sensação de segurança absoluta no centro do império
- Necessidade política de demonstrar capacidade de proteção da capital
O que veio depois
- Fortificação permanente da cidade de Roma
- Alteração da fisionomia urbana e definição de novos acessos
- Símbolo material da mudança de uma postura ofensiva para defensiva
Importância histórica
Traduz em pedra a nova condição do império: um Estado que passa a pensar primeiro em defender-se.
O que dizem as fontes
A muralha é, ao mesmo tempo, bem documentada e mal explicada. Como monumento físico, é um dos mais bem conservados do mundo romano, e a arqueologia e a análise dos tijolos permitem acompanhar as fases de construção e as reformas posteriores. Já as fontes literárias são breves: Zósimo e a Historia Augusta mencionam a obra em poucas linhas, e a biografia de Aureliano nesta última obra é pouco confiável. Os números de extensão e altura variam conforme o método de medição e a fase considerada. Debate-se se a obra foi mais uma resposta militar, tendo em vista as incursões germânicas, ou um gesto de prestígio de Aureliano, que desejava mostrar capacidade de proteger a capital. As datas finais da construção são aproximadas.
Figuras envolvidas
- Aureliano — o restaurador da unidade
Fontes consultadas
- Zósimo, História Nova, livro I Fonte antiga
- Centro Histórico de Roma, bem inscrito na Lista do Patrimônio Mundial UNESCO
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