Contexto histórico
Do ponto de vista oriental, o ato era ilegítimo: o império romano existia e tinha um titular reconhecido. Do ponto de vista ocidental, o trono estaria vago por ser ocupado por uma mulher, argumento usado na ocasião. O episódio inaugura a longa disputa medieval sobre quem é o verdadeiro herdeiro de Roma e demonstra a força persistente do nome romano como fonte de legitimidade política, três séculos após o fim da linha imperial ocidental.
Como se desenrolou
O contexto imediato foi uma crise em Roma. Em abril de 799, o papa Leão III foi atacado em procissão por parentes e aliados de seu antecessor, Adriano I, que o acusaram de má conduta e tentaram feri-lo. Escapou e procurou refúgio junto a Carlos, em Paderborn, na Saxônia. Escoltado por oficiais francos, voltou a Roma. O rei chegou no fim de novembro de 800, presidiu uma assembleia e, em 23 de dezembro, o papa prestou juramento de purgação, declarando-se inocente das acusações. Nenhum tribunal tinha autoridade para julgar o pontífice, de modo que a solução foi um gesto de compromisso, favorável a ambos.
Na missa de Natal, na basílica de São Pedro, Leão III colocou uma coroa na cabeça de Carlos, e o povo presente o aclamou como imperador dos romanos, segundo os Anais Reais Francos. Foram usadas fórmulas litúrgicas, e o papa o saudou à maneira dos antigos imperadores, o que as fontes descrevem como adoração. O título oficial adotado por Carlos foi o de imperador governando o Império Romano, uma fórmula que evitava a reivindicação de ser o imperador dos romanos em sentido pleno. Em Constantinopla, a imperatriz Irene reinava sozinha desde que cegara o filho Constantino VI em 797, e a ausência de um homem no trono foi usada como argumento de que o título estava vago.
As consequências diplomáticas arrastaram-se por anos. Irene foi deposta em 802 por Nicéforo I, e as relações se mantiveram tensas, com disputas sobre a Dalmácia e Veneza. Só em 812, depois de campanhas e negociações, o imperador Miguel I Rangabé reconheceu Carlos como imperador, mas sem o chamar de imperador dos romanos, título que Constantinopla reservava para si. Em Aachen, o novo imperador mandou construir uma capela palatina inspirada em modelos de Ravena, e seu filho Luís, o Piedoso, foi coroado imperador em 813, por decisão do pai e sem intervenção do papa, o que dá a entender que Carlos não via o título como dádiva pontifícia.
O que levou a isso
- Vazio de poder político no Ocidente e ascensão do reino franco
- Interesse do bispo de Roma em um protetor militar próximo
- Disputa sobre a legitimidade do governo então exercido em Constantinopla
O que veio depois
- Criação de uma linha imperial ocidental concorrente à de Constantinopla
- Conflito diplomático duradouro entre as duas cortes
- Consolidação do título imperial como recurso político na Europa medieval
Importância histórica
Mostra a permanência da autoridade simbólica de Roma como fundamento de legitimidade muito depois do fim do império no Ocidente.
O que dizem as fontes
Eginhardo, biógrafo e membro da corte, afirma que Carlos teria dito que não entraria na igreja naquele dia se soubesse o que o papa pretendia, mas é discutido se isso reflete modéstia calculada, descontentamento real com a iniciativa papal ou apenas uma construção literária posterior. Os Anais Reais Francos e o Liber Pontificalis dão versões que enfatizam papéis diferentes. Teófanes registra um rumor de casamento entre Carlos e Irene, sem confirmação. Os historiadores debatem se o projeto foi planejado em conjunto, se partiu do papa ou da corte franca e o que o título significava: restauração do Império Romano do Ocidente ou criação de uma nova realeza cristã.
Figuras envolvidas
- Carlos Magno
- Leão III
- Irene de Atenas
Fontes consultadas
- Eginhardo, Vida de Carlos Magno Fonte antiga
- The Oxford Dictionary of Byzantium Oxford University Press
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