Contexto histórico
Enviado pelo imperador do Oriente para retomar a Itália, Teodorico eliminou Odoacro e estabeleceu um governo que combinava rei godo e estrutura administrativa romana. Cargos civis permaneceram nas mãos de romanos, o Senado continuou a se reunir, obras públicas foram restauradas e a produção intelectual floresceu. O episódio evidencia que o fim da linha imperial ocidental não significou o fim imediato da civilização romana na Itália.
Como se desenrolou
Teodorico, que havia sido educado em Constantinopla e recebera títulos do imperador Zenão, cruzou os Alpes Júlios em 489 à frente de um grupo que as fontes descrevem como povo em marcha, com guerreiros, famílias e carroças. Venceu Odoacro em batalhas travadas no rio Isonzo e perto de Verona, mas o adversário se refugiou em Ravena, protegida por pântanos e pelo mar. O cerco arrastou-se por cerca de três anos e terminou em 493 com um acordo de partilha do poder. Pouco depois, segundo a tradição narrada por cronistas posteriores, Teodorico matou Odoacro com as próprias mãos durante um banquete e eliminou seus partidários.
O arranjo de governo que se seguiu dividia funções. Os godos formavam o exército e eram regidos por seus costumes, enquanto os romanos conservavam a administração civil, os tribunais e o direito comum. Teodorico era chamado rex pelos súditos, mas a corte de Constantinopla, sob Anastácio, só reconheceu sua posição por volta de 497, em termos ambíguos. A chancelaria usava o latim culto, e homens de famílias senatoriais ocuparam postos como o de prefeito do pretório e o de mestre dos ofícios. Ravena recebeu palácio, igrejas e muralhas reformadas, e o rei também residia em Verona e em Pavia, mantendo o Edito de Teodorico como complemento legislativo.
A convivência religiosa foi tolerante enquanto o equilíbrio durou: os godos eram cristãos arianos, a população romana era católica, e o rei evitou impor uma confissão a outra. A situação mudou na década de 520, quando o imperador Justino I passou a pressionar os arianos no Oriente. Teodorico enviou o papa João I a Constantinopla em 525, e o pontífice morreu pouco depois de voltar, em prisão em Ravena. No mesmo período foram condenados e executados Boécio e seu sogro Símaco, acusados de conspirar com o Oriente. Teodorico morreu em 526 e deixou o trono ao neto Atalarico, ainda criança, sob a regência da filha Amalasunta, num reino que logo se tornaria vulnerável.
O que levou a isso
- Interesse do imperador do Oriente em remover Odoacro do poder na Itália
- Capacidade militar dos ostrogodos e liderança de Teodorico
- Continuidade das estruturas administrativas romanas, que era vantajosa para o novo governo
O que veio depois
- Preservação do direito, do Senado e da administração romanos na Itália
- Restauração de obras públicas e período de estabilidade econômica
- Produção de obras intelectuais que transmitiriam o saber antigo à Idade Média
Importância histórica
Prova concreta de que o Ocidente pós-imperial manteve por décadas as instituições romanas em funcionamento.
O que dizem as fontes
As Variae de Cassiodoro, cartas oficiais reunidas por volta de 537, mostram uma administração que se pensava romana, mas foram editadas depois da morte do rei e com intenção apologética. O Anônimo Valesiano e a Consolação da Filosofia de Boécio oferecem ângulos mais críticos. A arqueologia de Ravena, com o mausoléu de Teodorico e os mosaicos de Sant’Apollinare Nuovo, confirma o investimento monumental. Os historiadores debatem se o reino representou continuidade romana genuína ou uma justaposição frágil entre godos e romanos. O tamanho do grupo ostrogodo, em geral estimado em algumas dezenas de milhares de pessoas, e a real autonomia do rei diante de Constantinopla continuam incertos.
Figuras envolvidas
- Teodorico, o Grande
- Odoacro
- Cassiodoro
- Boécio
Fontes consultadas
- Cassiodoro, Variae Fonte antiga
- Monumentos paleocristãos de Ravena, bem do Patrimônio Mundial UNESCO
Acontecimentos relacionados
4 de setembro de 476 d.C.
Deposição de Rômulo Augústulo
O comandante Odoacro depôs o último imperador do Ocidente, dispensou o cargo em vez de nomear um substituto e devolveu as insígnias…
533–554 d.C.
Campanhas de reconquista de Justiniano
O Império do Oriente reconquistou a África vândala, a Itália ostrogoda e parte do sul hispânico, restaurando temporariamente o controle…
480 d.C.
Morte de Júlio Nepos e fim formal da linha imperial ocidental
O último imperador do Ocidente reconhecido pelo Oriente foi assassinado na Dalmácia, encerrando juridicamente a linha imperial ocidental…
610–641 d.C.
Governo de Heráclio e a transformação do Estado romano oriental
Heráclio venceu uma guerra devastadora contra os persas e conduziu mudanças administrativas e linguísticas que marcam a passagem do Estado…