Sobre a data: A escolha de 476 como data do fim do Império do Ocidente é uma convenção historiográfica posterior. Para os contemporâneos, tratou-se de mais uma deposição entre muitas, e Júlio Nepos continuou reconhecido como imperador legítimo pelo Oriente até 480.
Contexto histórico
A decisão mais significativa não foi a deposição em si, mas a de não instalar outro imperador. Odoacro passou a governar a Itália como rei, reconhecendo formalmente a autoridade do imperador do Oriente. A administração romana, o Senado e a estrutura fiscal continuaram funcionando por décadas. Para quem vivia na Itália, houve mudança de comando militar, não desaparecimento de um mundo. A leitura de 476 como fim de uma era foi construída séculos depois.
Como se desenrolou
Em outubro de 475, o general Orestes, antigo secretário de Átila e depois mestre dos soldados, expulsou o imperador Júlio Nepos de Ravena e colocou no trono seu próprio filho, ainda menino, Rômulo, apelidado Augústulo. O Oriente nunca o reconheceu. As tropas federadas da Itália, compostas de hérulos, rugios, citas e turcílingos, exigiram então um terço das terras italianas para se estabelecer, modelo já usado em outras províncias. Orestes recusou, e os soldados proclamaram rei, em 23 de agosto de 476, um de seus chefes, Odoacro, filho de Edecão, personagem ligado ao círculo huno.
Odoacro agiu com rapidez. Orestes foi capturado em Placência e executado em 28 de agosto, e seu irmão Paulo foi morto perto de Ravena. Em 4 de setembro, Odoacro entrou em Ravena e depôs Rômulo, que, em razão da pouca idade, foi poupado e enviado para a Campânia, ao Castelo Lucullano, com uma renda anual atribuída, segundo o Anônimo Valesiano, de seis mil sólidos. Em vez de aclamar outro imperador, Odoacro governou como rei, assumindo o título de patrício e usando a administração e o Senado existentes. A distribuição de terras aos soldados foi realizada, possivelmente por meio de partilha de receitas ou de propriedades.
Uma delegação do Senado seguiu para Constantinopla e entregou ao imperador Zenão as insígnias imperiais do Ocidente. Segundo Malco, preservado em fragmentos, a mensagem declarava que um único imperador bastava e pedia que Zenão concedesse a Odoacro o título de patrício. Zenão respondeu que os romanos deviam receber Nepos de volta, pois este fora nomeado por Leão I e ainda vivia na Dalmácia. Odoacro cunhou moedas em nome de Zenão e manteve o vínculo formal, mas na prática não obedeceu, e permaneceu soberano da Itália até a chegada dos ostrogodos de Teodorico.
O que levou a isso
- Exigência de terras por tropas mercenárias na Itália, recusada pelo governo
- Esvaziamento completo da autoridade efetiva do cargo imperial ocidental
- Perda das províncias que sustentavam financeiramente o governo do Ocidente
O que veio depois
- Fim da linha de imperadores no Ocidente e governo de Odoacro como rei da Itália
- Reconhecimento formal da autoridade do imperador do Oriente
- Continuidade das instituições administrativas romanas na Itália por décadas
Importância histórica
Data convencional do fim do Império Romano do Ocidente, cuja importância simbólica é maior do que sua ruptura prática imediata.
O que dizem as fontes
As fontes imediatas são curtas: o Anônimo Valesiano, Malco e o cronista Marcelino Comes, que, no começo do século VI, associou 476 ao fim do império do Ocidente, formulação que ajudou a criar a periodização tradicional. Jordanes retoma a data. Para os contemporâneos, o acontecimento foi menos marcante do que se pensa, e Gibbon só a consolidou em linguagem moderna. Historiadores como Guy Halsall e Peter Heather divergem sobre a importância do ano, e Bryan Ward-Perkins defende que a ruptura foi real, ao passo que Peter Brown e outros enfatizam as continuidades. A numismática mostra moedas de Odoacro com nomes imperiais, o que sustenta a ideia de uma ficção de unidade romana.
Figuras envolvidas
- Rômulo Augústulo — o último imperador do Ocidente
- Odoacro — o primeiro rei da Itália
- Zenão
Fontes consultadas
- Marcelino Comes, Crônica Fonte antiga
- Procópio de Cesareia, Guerra Gótica Fonte antiga
- Bryan Ward-Perkins, The Fall of Rome and the End of Civilization Oxford University Press
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