Contexto histórico
Otaviano, Marco Antônio e Lépido dividiram entre si o controle das províncias e receberam autoridade legal para legislar e julgar sem recurso. As proscrições serviram simultaneamente para eliminar adversários e para financiar os exércitos com bens confiscados. A morte de Cícero, orador e defensor mais eloquente da tradição republicana, tornou-se símbolo do fim de uma era política. O acordo duraria uma década antes de se romper.
Como se desenrolou
O quadro de 43 a.C. era confuso. Em abril, Antônio fora derrotado perto de Mutina pelos cônsules Hírcio e Pansa e por Otaviano, mas os dois cônsules morreram, deixando Otaviano à frente de legiões. O Senado, sob influência de Cícero, tratou o jovem com desdém e negou-lhe honras. Otaviano marchou então com as tropas até Roma e foi eleito cônsul em agosto, aos dezenove anos, revogando a anistia dos assassinos de César. Antônio, refugiado na Gália, uniu-se a Lépido. Em outubro ou novembro, os três se encontraram numa pequena ilha de um rio perto de Bolonha e, segundo Apiano, discutiram por dois ou três dias antes de fechar o acordo.
A Lei Tícia, de 27 de novembro de 43 a.C., instituiu os três como tresviri rei publicae constituendae, com poder consular, por cinco anos e sem direito de veto. A repartição das províncias atribuiu a Antônio as Gálias Cisalpina e Comata, a Lépido a Narbonense e as Hispânias, e a Otaviano a África, a Sicília e a Sardenha, ficando a Itália em comum. Acordou-se que Antônio e Otaviano conduziriam a guerra contra Bruto e Cássio. Para pagar as tropas, Apiano diz que prometeram aos soldados dezoito cidades italianas ricas como terra de assentamento. O pacto resultou da necessidade de soldados e dinheiro, não de afinidade política.
As proscrições foram anunciadas em listas afixadas. Segundo Apiano, as primeiras trouxeram poucos nomes, depois ampliados, até um total de cerca de trezentos senadores e dois mil cavaleiros, números que as estimativas modernas discutem. Havia recompensa para delatores, com dinheiro para os livres e liberdade para escravos, e punição para quem escondesse proscritos. Cícero foi morto em 7 de dezembro, perto de Formia, e sua cabeça e suas mãos foram expostas nos Rostra, em Roma. Parte dos proscritos fugiu para Sexto Pompeu, na Sicília, ou para Bruto e Cássio, no Oriente. Muitos foram salvos por esposas, parentes e escravos, episódios que as fontes narram com ênfase.
O que levou a isso
- Necessidade dos herdeiros políticos de César de unir forças contra os conspiradores
- Falta de recursos para pagar exércitos numerosos
- Fracasso do Senado em oferecer alternativa institucional viável
O que veio depois
- Execução de centenas de senadores e cavaleiros, entre eles Cícero
- Financiamento das legiões por confisco em larga escala
- Divisão do mundo romano em zonas de influência entre os três
Importância histórica
Institucionaliza legalmente o poder extraordinário de um pequeno grupo e liquida fisicamente a liderança política republicana remanescente.
O que dizem as fontes
Apiano, no livro IV das Guerras Civis, oferece a narrativa mais detalhada, com listas e histórias de fuga, em parte provavelmente retocadas pela tradição. Os números de vítimas citados vêm dele e variam em outros autores, o que impõe cautela. A inscrição conhecida como Laudatio Turiae, um elogio fúnebre em que o marido proscrito descreve como a esposa o salvou, é testemunho epigráfico raro desse período. As fontes divergem sobre o peso de cada triúnviro nos assassinatos, em especial o de Cícero: a tradição antiga costuma atribuir a Antônio a iniciativa e a Otaviano a concessão relutante, o que pode ter servido à imagem posterior de Augusto. Ronald Syme vê nas proscrições o instrumento de uma revolução.
Figuras envolvidas
- Augusto — o fundador do principado
- Marco Antônio — o triúnviro do Oriente
- Cícero — o orador da República tardia
- Otaviano
- Lépido
Fontes consultadas
- Apiano, Guerras Civis, livro IV Fonte antiga
- Plutarco, Vidas Paralelas: Cícero e Antônio Fonte antiga
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