Contexto histórico
Tácito resumiu a lição do período em uma frase célebre: descobriu-se que era possível fazer um imperador fora de Roma. Os exércitos da Hispânia, da Germânia e do Oriente aclamaram seus próprios candidatos, e a disputa foi resolvida por batalhas em solo italiano. Vespasiano, comandante na Judeia, saiu vencedor e fundou a dinastia flaviana, restaurando as finanças públicas e iniciando um amplo programa de obras.
Como se desenrolou
O ano começou com Galba, governador da Hispânia Tarraconense, já proclamado imperador após a morte de Nero, em 68. Em 1º de janeiro de 69, as legiões do Reno recusaram-se a renovar o juramento e aclamaram Vitélio, comandante da Germânia Inferior. Duas colunas, lideradas por Fábio Valente e Aulo Cecina, desceram para a Itália. Em Roma, Galba perdeu popularidade por avareza e por adotar Pisão como herdeiro, preterindo Marco Sálvio Óton. Em 15 de janeiro, os pretorianos mataram Galba no Fórum e aclamaram Óton, que prometeu gratificações. Tácito descreve a cidade tomada por medo, boatos e oportunismo.
Em abril, perto de Cremona, as forças de Vitélio derrotaram as de Óton na batalha de Bedríaco. Óton, que tinha ainda reservas, preferiu se matar em 16 de abril para evitar mais mortes, atitude que Tácito elogia. Vitélio entrou em Roma com um exército indisciplinado, tomou banquetes extravagantes e perdeu apoio nas províncias orientais. Em 1º de julho, em Alexandria, o prefeito do Egito, Tibério Júlio Alexandre, proclamou Vespasiano, que contava com as legiões da Judeia e da Síria sob Muciano. Pouco depois, as legiões do Danúbio, lideradas por Antônio Primo, aderiram e invadiram a Itália sem esperar instruções.
A segunda batalha de Bedríaco, em outubro, decidiu a guerra em favor dos flavianos, e Cremona foi saqueada e destruída, episódio que Tácito considera um dos mais cruéis da guerra civil. Em dezembro, tropas de Antônio Primo entraram em Roma. No combate, o Capitólio foi incendiado, destruindo o templo de Júpiter, e Vitélio foi arrastado pelas ruas e morto em 20 de dezembro. O Senado conferiu a Vespasiano os poderes imperiais por meio de um ato conhecido por inscrição em bronze, a lex de imperio Vespasiani. Em paralelo, a revolta de Júlio Civil, na Batávia, ameaçava o Reno e só seria contida em 70.
O que levou a isso
- Fim da linhagem júlio-claudiana sem herdeiro reconhecido
- Insatisfação militar e provincial com o governo de Nero e de seu sucessor imediato
- Ausência de regra sucessória clara no sistema imperial
O que veio depois
- Ascensão de Vespasiano e início da dinastia flaviana
- Reforma das finanças públicas e retomada de grandes obras
- Demonstração permanente de que legiões provinciais podiam impor um governante
Importância histórica
Primeira grande crise sucessória do império e antecipação do padrão que dominaria o século III.
O que dizem as fontes
As Histórias de Tácito, em cujos livros iniciais baseia-se a reconstrução, foram escritas sob os flavianos mais tarde, e o autor declara querer narrar sem favor nem ódio, embora tenha feito carreira sob essa dinastia. Suetônio, Plutarco (em vidas de Galba e Óton) e Dião Cássio permitem confrontar versões. A inscrição da lex de imperio Vespasiani é rara evidência documental do aspecto jurídico do poder imperial. As datas de batalhas e a localização exata de Bedríaco são discutidas. Também se debate a noção de que a Itália foi apenas palco, pois as decisões dependeram de comandantes provinciais com motivações pessoais e regionais.
Figuras envolvidas
- Vespasiano — o fundador da dinastia flaviana
- Galba
- Óton
- Vitélio
Fontes consultadas
- Tácito, Histórias, livros I–III Fonte antiga
- Suetônio, Vida dos Doze Césares: Galba, Óton, Vitélio e Vespasiano Fonte antiga
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