Sobre a data: Certificados de sacrifício preservados em papiro no Egito comprovam a aplicação prática da exigência imperial.
Contexto histórico
A exigência não mencionava cristãos: era uma convocação geral de renovação da lealdade religiosa em momento de crise militar e epidêmica. Mas, ao obrigar todos a sacrificar, colocava os cristãos diante de uma escolha impossível. Muitos cumpriram, alguns compraram certificados sem sacrificar e outros recusaram e foram executados. A questão de como reintegrar os que haviam cedido gerou um debate interno duradouro nas igrejas e influenciou a formação da disciplina eclesiástica.
Como se desenrolou
O édito foi promulgado provavelmente no início de 250, pouco depois da ascensão de Décio. Os textos que o descrevem, em geral escritos por autores cristãos, indicam que todos os habitantes deviam sacrificar aos deuses tradicionais, fazer libações e provar a carne sacrificada, na presença de comissões locais de magistrados e cidadãos de destaque. Cada pessoa recebia um certificado, o libellus, que atestava o cumprimento do rito. O sistema dependia, portanto, da administração municipal, não de tropas ou delatores, e os prazos eram fixados localmente. Foi uma operação burocrática de grande escala, pensada para registrar a adesão de uma população inteira ao culto cívico, e não para caçar uma seita específica.
Os papiros do Egito, sobretudo do Faium, preservam algumas dezenas desses certificados. Escritos em grego por escribas, quase sempre em fórmulas semelhantes, declaram que o interessado sempre sacrificara aos deuses e o fizera de novo, e registram idade, aparência e testemunhas. Entre os cristãos, a pressão recaiu mais sobre os dirigentes: Fábio, bispo de Roma, morreu em janeiro de 250, e Babilas de Antioquia e Alexandre de Jerusalém também são lembrados como vítimas, este último em prisão. Cipriano de Cartago preferiu esconder-se e dirigir a comunidade à distância, e Orígenes foi torturado em Cesareia, segundo Eusébio. Muitos fiéis, porém, cederam, compraram certificados ou fugiram.
A morte de Décio em 251 interrompeu a campanha, mas deixou um problema pastoral grave: o dos lapsi, os que haviam caído. Cipriano escreveu sobre eles e presidiu concílios em Cartago que defenderam readmissão gradual, mediante penitência. Em Roma, o presbítero Novaciano rejeitou essa indulgência e foi consagrado bispo rival, dando origem a uma igreja que sobreviveu por séculos. A discussão sobre quem tinha autoridade para perdoar, bispos ou mártires e confessores, moldou a disciplina penitencial. Poucos anos depois, em 257 e 258, Valeriano retomou a repressão de forma mais direcionada ao clero, e Cipriano foi executado em 258.
O que levou a isso
- Busca de coesão religiosa diante de derrotas militares e epidemia
- Concepção romana de que a prosperidade dependia do culto correto aos deuses
- Crescimento visível de comunidades que se recusavam a participar dos cultos públicos
O que veio depois
- Execuções e prisões de líderes cristãos em várias províncias
- Divisão interna nas igrejas sobre o tratamento dos que cederam
- Precedente para perseguições mais amplas nas décadas seguintes
Importância histórica
Primeira medida de alcance imperial a atingir sistematicamente os cristãos, etapa decisiva na longa disputa entre o Estado romano e o cristianismo.
O que dizem as fontes
O que se sabe do édito vem de duas camadas de fontes. De um lado, os papiros do Egito, autênticos e contemporâneos, provam que a exigência existiu e foi aplicada, ao menos ali, de modo geral. De outro, Eusébio, escrevendo décadas depois, e as cartas de Cipriano, que testemunham o impacto sobre as comunidades cristãs. O texto do próprio édito não sobreviveu, e por isso seu conteúdo exato, a data precisa e o grau de intenção anticristã continuam debatidos. Muitos historiadores veem na medida uma convocação religiosa universal, não uma perseguição dirigida; outros sublinham que, na prática, seu efeito foi sentido sobretudo pelos cristãos. Não há estimativas confiáveis do número de mártires.
Figuras envolvidas
- Décio — o imperador do édito de sacrifício
Fontes consultadas
- Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, livro VI Fonte antiga
- Certificados de sacrifício em papiro The British Museum
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